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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Longa viagem Grenoble-Recife

Chegamos em Recife no dia 24/10. Desta vez é para ficar, eu acho. Talvez por essa ansiedade do retorno a viagem tenha sido longa, cansativa e estressante. Talvez para valorizar a chegada. Sei lá. O que tenho a relatar é que foi caótica, e se não fosse pela ajuda de nossos amigos poderia ter sido pior. Foram várias etapas "dramáticas", descritas a seguir.


Mutirão em Grenoble
Eram 8 malas, duas mochilas, um bebê e um gato. Muita bagagem. Eu precisaria me transformar num octopus para carregar tudo. A estratégia foi deixar a maior parte na casa de um amigo que mora ao lado da gare de Grenoble, onde pegaríamos um trem para Lyon, e lá outro direto para o aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Chegamos em cima da hora na gare. Nossos amigos já tinham levado parte das malas, e já sabiam o quai onde ia sair o trem. Uma amiga nossa tinha nos levado de carro e ainda tinha bastante bagagem. A galera veio ajudar buscando as coisas no carro e subimos correndo no trem, onde acomodamos a bagagem rapidinho. Não deu nem tempo de se despedir direito.

Troca de trens em Lyon

E agora? Como fazer para trocar de trem? 14 minutos de intervalo entre a chegada de nosso trem e a saída do TGV. Impossível eu dar conta. Minha esposa estava limitada a ajudar pois havia o carrinho de bebê com nossa filha e o gato para ela carregar. O namorado de uma amiga nossa mora em Lyon e foi "encarregado" do socorro. Pedi para ele levar dois amigos, mas conseguiu apenas uma alma caridosa para ajudá-lo. Eu nem sabia em que vagão estávamos para poder dizê-lo por telefone. Por sorte, o vagão do nosso trem parou ao lado de onde ele estava. 

Agonia para despejar as 8 malas. Levamos uma parte para o quai onde estava parado o TGV. Um de nós ficou vigiando as malas, e voltei com outro até onde estava minha esposa para virmos com o resto da bagagem. Conseguimos chegar com o trem ainda lá e já era hora do TGV sair. Jogamos tudo no vagão ao lado da rampa. Não era nosso vagão, e TGV tem lugar marcado. Não queríamos saber, apenas queríamos entrar no trem. Tudo certo. Todas as malas no trem. E um vagão bloqueado por nós. Ninguém passava. A porta automática do trem emperrando no carrinho da minha filha, que dormia como um anjo. As malas não deixavam ninguém passar. Fila de pessoas para subir a escada ao lado. O trem já tinha partido. Arruma mala aqui, ali. Passa um, passa outro. Joguei as malas todas no andar de cima.

Bagagem perdida no TGV
Stress para descer com as malas ao chegar em Paris. O controlador na estação avisado das bagagens não queria saber, ficou pressionando e dizendo que o trem não podia esperar.  Um passageiro ajudou a descer com algumas malas, cada uma em média com 30kg. Contagem rápida de malas: oito. Ok. Subida rápida no trem para desencargo de consciência, rabo de olho e descida rápida. O trem vai embora. Aliviado, empilho tudo em dois carrinhos. Conto novamente. Opa. Essa mala cinza eu nao contava com ela. Era a bagagem de mão da minha filha. Não era pra ter entrado na contagem. PQP!!! Cadê a mala preta? 

Achados e perdidos
Vou até o balcão de informação e me dizem que o trem ia para a estação Lille Flanders. Ligo lá e para Lille Europe, que gerencia os achados e perdidos. Apenas no dia seguinte poderíamos saber se a bagagem foi encontrada ou não. A SNCF, empresa dos trens, não se responsabiliza por bagagens perdidas e portanto é responsabilidade do passageiro ir buscá-la ou enviar alguém onde a bagagem estiver. E agora?

Gato com documentação irregular
Nossa passagem era pra ficar em fila de espera, pois foi com tarifa de dependente de funcionário da TAM (novamente, os amigos ajudando na viagem). A compra do bilhete do gato e da nossa filha seria feita na hora. O gato estava com o passaporte e vacinas em dia, mas também dependia de vaga no vôo. O máximo permitido é de dois animais domésticos no mesmo avião. Surgiu vaga no vôo. Beleza! Checa a documentação do gato. Cadê o Certificado Zoosanitario Internacional (CZI) ? PQP!!! Não pode voar. Ficamos em Paris para resolver. O dia seguinte era um domingo...

Sem teto no aeroporto
Antes de poder telefonar ou ir para a clínica veterinária precisaríamos passar a noite no aeroporto. Achamos muito complicado procurar hotel que aceite um gato como hóspede, além do incoveniente de 8 malas, sem contar com nossa filha e o carrinho de bebê. Além disso, a grana ia ser incoveniente também: taxi pra ir e voltar no hotel, taxi no outro dia pra ir ao veterinário, tudo caro em Paris, estávamos desempregados, etc. 

Comemos na McDonald's no piso térreo do Terminal 1, e nos instalamos nas confortáveis poltronas por ali. Tão confortáveis que vários sem teto aparecem por lá para dormir. Tem gente manjada, e o segurança chegou para tirar um de lá. Chamou uma mulher da administração, depois até a polícia. E nós do lado, com 8 malas, 2 mochilas, um gato e um bebê. O nobre segurança olha para nós, abatidos e com cara de sem teto (realmente estávamos sem teto) e pergunta "vocês vão viajar?".  Com muita indignação e num tom de "é óbvio, seu imbecil!", abri os braços apontando para as malas e disse "é claro!".

Desistimos de ficar por lá, pois tava crowdeado com sem teto, uns três. Tinha outras três ou quatro pessoas que pareciam ser passageiros mesmo. Mas na verdade não dá pra saber ao certo, pois os sem teto andam com malas nos carrinhos de bagagem para fingir que são passageiros.

Subimos para a área de embarque, onde estava tudo apagado e apenas o pessoal de limpeza. Dezenas de balanças à nossa disposição para refazermos as malas. Longa noite reequilibrando o peso. Nessa arrumação, nasceu mais uma mala. Agora eram nove. Dormimos muito mal, nervosos e preocupados achando que iam roubar a bagagem ou sequestrar nossa filha. 

Taxi uma ova
O domingo raiou, passageiros ocupando o aeroporto. Um grupo barulhento de muçulmanos subsaarianos nos acorda. Descer, tomar café da manhã no McDô,  e ainda tinha o documento do gato. O cara da TAM disse pra pegar taxi pra ir ao veterinário. Taxi uma ova. Eu vou é de trem. A ida e volta no RER ficou por 9,40 ao invés de ficar pra lá dos 50 se fosse de taxi. 

Mala achada
Voltei ao aeroporto com o documento do gato e fomos para a fila de espera no balcao de embarque. Antes, uma ligadinha para a estaçao de trem de Lille. O cara disse que acharam uma mala com a descriçao que dei e perguntou se era uma mala cheia de utensilios de cozinha. Ela mesmo. Cheio de coisas da Doce Sucré. Perfeito. O cidadao la falou que o protocolo foi gerado e a mala etiquetada. Agora eu teria dois meses para achar alguém para ir buscar a mala. Depois disso eles dariam fim a ela caso ninguém aparecesse.

Gato sem reserva no vôo de conexão
Chegamos em Guarulhos, tiramos as malas, fizemos alfândega e seguimos para o balcão de conexão. Descobriram que o gato nao tinha reserva até Recife. Não sabiam nem se o bilhete dele tinha sido pago ou não pois não constava no sistema dele. Decidimos que minha esposa seguiria com nossa filha no vôo pra Recife e eu ficaria para resolver. 

Tudo certo, a loja da TAM achou os dados informando que o transporte do gato estava pago. Lá vou eu no vôo seguinte, ainda tem stress no raio-X onde eu já tava de saco cheio de tudo e quase choro de desespero e raiva, pedindo pra me deixar ir embora. Fiquem com o gato, mandem por Sedex. Eu só queria chegar. Fui o último a entrar no avião, e como sempre todos perguntando: "é um cachorro?". Não, era um gato. Maldito gato. 

Voltei, Recife
Parafraseando a música de Alceu Valença: "Voltei, Recife. Foi minha esposa que me trouxe pelo braço".
Com a glória de Maomé, das tábuas de Moisés, do Bhagavad Gita, do Torá e de tudo o que é sagrado, chegamos ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, rebatizado de Gilberto Freyre. A bagagem despachada seguiu com minha esposa. Eu só estava com minha mochila, um gato e um casaco pesado e inadequado para os 28°C que me esperavam naquele meio de manhã ensolarado de Recife. Jogo tudo em cima de um carrinho de bagagem, e dirigindo-me à saída do portão de desembarque vi uma mulher com o penteado e porte físico parecidos com o de minha mãe, que há onze anos estava no portão de desembarque do antigo aeroporto me esperando chegar de volta dos Estados Unidos, na mesma situação de mudança, mas sem esposa, sem filho e muito menos gato. Meus olhos se enchem de lágrimas. Um nó na garganta, pois rapidamente me dou conta que minha mãe já não está entre nós há quase oito anos. Engulo o choro e sigo caminhando. Saio, e não tem ninguém me esperando. Por incrível que pareça, só não me senti mais só por que estava com o gato.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Jeitinho francês

Em algum post neste blog já falei que várias pessoas já quebraram meu galho por aqui. Nada que fuja da legalidade, mas uma "mãozinha" que agiliza na hora que precisei. É normal muito francês não quebrar galho e dizer o velho désolé ("só lamento" numa boa versão brasileira humorada), mas eu dei sorte algumas vezes. Algumas quebradas de galho poderiam dar bronca pra quem fez, pois dependendo da interpretação do regulamento poderia-se considerar como fora da legalidade, mesmo que temporariamente. Posso contar pessoalmente a quem quiser, pois não quero deixar provas aqui, mesmo que o blog seja em português. Sei lá se alguém vai dedurar  :) 

A última quebrada de galho foi a acelerada na liberação do meu comprovante de defesa de doutorado. Eu tenho até agora o título verbal e testemunhas. Nenhum papel diz que eu sou doutor. Nesta época do ano (setembro e outubro), devido ao alto número de defesas de doutorado, o processo leva de duas a três semanas após a entrega da tese na biblioteca. Eu entreguei a minha segunda-feira passada. O colégio doutoral poderia me emitir uma cópia do documento esta semana, mas o original seria liberado só depois da validação na biblioteca. Mandei emails às diferentes pessoas, explicando a situação de que eu estaria voltando para meu país e que o documento seria necessário, esperar envio pelo correio ia complicar se parari parará etc e tal. O documento está pronto e liberado hoje, uma semana e um dia após eu ter dado entrada no processo. O problema é que se todo mundo pedir com urgência, sem realmente ser urgente, o termo banaliza e nenhum funcionário vai querer mais quebrar o galho de quem precisa.

domingo, 25 de setembro de 2011

Defesas de doutorado na França

Post esquecido em modo edição há uma semana. Segue ele:

Apesar de eu nao saber em detalhe como funcionam no Brasil as defesas de doutorado, sei que em relaçao à França tem boas diferenças. Neste post detalho um pouco como funciona aqui na França, especificamente defesas de teses em Computaçao na academia de Grenoble.

No Brasil ouvi muita gente falar de uma etapa chamada de "qualificaçao", em que o doutorando apresenta o problema que esta estudando, a relevância, as abordagens e soluçoes propostas os avanços, etc. Pelo que entendi, tudo isso serve como uma pré-aprovaçao (malditos hifens que nao sei se ainda existem com a nova reforma ortografica). Depois de passar na qualificaçao o doutorando continua a redaçao da [dissertaçao |tese|manuscrito| o nome que você achar melhor] e defende dentro de alguns meses.

Aqui, como tudo na boa e velha França, tem uma deliciosa burocracia em um tempo curto que traz uma pitada de stress ao doutorando, especialmente se ele corre contra o relogio, como eu. Resumi em dez as etapas a serem seguidas:

  1. Escolha da banca examinadora: Normalmente escolhida pelo orientador, mas o doutorando pode "influenciar", como eu consegui. Propus três dos seis membros da banca (sete contando com o orientador). O maximo sao 8 membros na banca.
  2. Preenchimento dos formularios de defesa:  Detalhes da defesa (titulo da tese, abstrac, data e local da defesa, membros da banca, etc). Entregar papelada na escola doutoral.
  3. Envio do manuscrito aos revisores da banca: Os revisores da banca (normalmente dois) recebem um convite formal da univseridade, e o manuscrito de tese é enviado à eles por correio pelo doutorando ou orientador.  
  4. Relatorio dos revisores: Os relatores tem quatro semanas para enviarem um relatorio autorizando ou nao a defesa. Esse é o "go/ no go". Aqui os relatores dao sua apreciaçao num relatorio escrito. Eles podem dizer nao (e obviamente soliticar alteraçoes), podem dizer sim e solicitar alteraçoes, e podem simplesmente dizer sim. Os critérios de aprovaçao sao: satisfatorio, bom, muito bom, excelente.
  5. Validaçao e processo de entrada na escola doutoral (departamento de computaçao): Relatorio ok, Papelada pra ser assinada pelo diretor da escola doutoral. Processo deve ser iniciado 4 semanas antes defesa. Essa etapa dura dois dias no minimo. 
  6. Envio do dossiê ao Colégio doutoral (universidade): Papelada pra receber a assinatura do presidente da universidade (i.e., reitor). Entregar com no minimo com 3 semanas de antecedência da data de defesa. Estou aguardando esta etapa, que ao que tudo indica 
  7. Defesa: O grande dia. 45 minutos de defesa, pelo menos cerca de 30 minutos de perguntas. Depois a banca se tranca numa sala para a deliberaçao do resultado. Imagino que decidam rapido, mas ficam fazendo hora pra "valorizar" o protocolo. Depois de uns 15 minutos informam o resultado. Geralmente é positivo, salvo rarissimas exceçoes (eu nao sei citar qual foi a exceçao). Depois disso o pôt de thèse, um coquetelzinho pra confraternizar-se com a banca e os outros que estavam presentes na defesa. Um relatorio e mais papeis da burocracia sao preenchidos pela banca e o recém-doutor entrega no colégio doutoral.
  8. Versao final entregue à biblioteca : Até três meses depois do passo acima. Hoje em Grenoble ja nao é mais necessario imprimir a tese (um desperdicio, pois geralmente teses nao sao lidas depois de defendidas). Agora basta fazer o upload no site da biblioteca et voilà.
  9. Comprovante de defesa: Emitido até 3 semanas depois do passo acima ser validado pela biblioteca.
  10. Emissao do diploma: Esse é lento. Leva entre um ano e um ano e meio apos o passo acima.

Eu tive a reposta positiva na semana passada, e tudo esta entregue à escola doutoral. Um relator marcou  o resultado como "muito bom" e o outro como "bom". Fiquei bem contente, pois mesmo depois de um periodo turbulento do lado pessoal, consegui ficar acima do satisfatorio. No momento em que escrevo este post estou entre os passos 6 e 7.

Segundo o que conheç até agora, se o doutorando chegou até a etapa de defesa ja esta tudo "quase" garantido e o titulo é "quase" certo. O grosso do trabalho mesmo para alcançar o grau de doutor foi a escrita da tese, e obviamente toda a pesquisa conduzida para chegar ao conteudo apresentado na tese. Comecei a dizer que a defesa faz parte do processo de tortura. Na verdade, é uma formalidade que serve para o candidato apresentar seu trabalho e responder aos questionamentos da banca, provando que foi ele quem conduziu a pesquisa. Isso evita fraudes de teses "compradas" ou escritas por terceiros (ex: assessor de alguém importante e muito ocupado para escrever uma tese, como um politico).

Provavelmente as duas unicas pessoas do mundo que lerao tua tese de cabo a rabo sao os relatores (rapporteurs). Talvez existam três, caso o orientador o faça. Tenho a impressao que o meu pulou varias paginas da minha, levando em conta a distribuiçao de comentarios ao longo das paginas: trechos carregados de comentarios versus trechos (longos) sem comentario algum, nem mesmo um "ok" como ele tem habito de colocar ao lado de frases delicadas ou de trechos pesados complicados para entender.

Acho-me extremamente prolixo (tem nada a ver com lixo nao, viu? Na duvida posto o link pra o dicionario). Vide os tamanhos dos posts. O mesmo aconteceu com a tese, que eu queria que tivesse 120 paginas de texto. Terminou com 170 e se contar capa, indices, referencias, subiu pra 198. Eu mudei a formataçao varias vezes pra ganhar paginas e descer das 200 pra nao assustar os rapporteurs. Acreditem em mim, poucas pessoas se motivam a ler teses de computaçao INTEIRAS com mais de 200 paginas. E olha que o assunto que estudo nao é hardcore. Alguns podem até questionar se Engenharia de Software é mesmo "ciência" digna de titulo de doutorado. A versao final vai passar das 200 paginas pois adicionei um resumo de 5 paginas em francês (escrevi a tese em inglês).

A defesa
Voltando à etapa 7, sao 45 minutos de defesa, o que acho um pouco desproporcional em relaçao ao tempo levado para a pesquisa. Para ter idéia, o tempo destinado aos artigos de conferência (+/- 16 paginas) que apresentei foram de 20 ou 25 minutos para cada um. De qualquer forma, a capacidade des sintese e de abstraçao do doutorando é avaliada na defesa. Ja assiti a uma defesa em que a sessao de perguntas foi de 1:30

Fico aqui entao aguardando a chegada destes 45 minutos, ja ansioso para dar ponto final nessa etapa e começar a proxima. No meio tempo, preparo os slides da apresentaçao e imagino possiveis perguntas que a banca vai fazer. Dia 6/10 à tarde estarei no Amphi E da Ensimag apresentando. Mentalizem boas vibraçoes para mim :)

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Brasileiros em Grenoble II

O post anterior puxou esse outro aqui.
Apesar das dezenas ou mesmo centenas de brasileiros, eu nao conheço muitos. Coisa minha mesmo. A maioria dos brasileiros que conheci aqui e com quem mantenho contato acho que foi através de minha esposa. Nao sou muito simpatico com estranhos. Acho que nem sou muito simpatico, apesar de brincalhao. Se eu ver alguém falando português é muito dificil que eu venha a falar "Ah, você é brasileiro? Quer ser meu amigo?". Aprendi a ser desconfiado com brasileiros pelo fato de eu ter morado alguns anos nos EUA, onde brasileiros dizem pra "ter cuidado com brasileiro". Estranho que sempre me falavam para nao confiar em mineiro de Governador Valadares. Nao entendo porque logo de Valadares. Eu até conheci um pizzaiolo muito gente boa que era valadarense, e que dizia também pra nao confiar em gente de Valadares. Bizarro. Mas eu nao confiava nele.

Na França, minha posiçao mudou. Nos EUA eu era um pobre trabalhador tentando a vida, na França eu sou um pobre estudante tentando a vida acadêmica. Essa historia de desconfiança parece mudar com estudantes, pelo menos foi o que vi por aqui. Nao acho que tenha esse negocio de passar a perna ou de querer se aproveitar, como acontece com muito imigrantes brasileiros em paises de primeiro mundo.

Entretanto, minha esposa conheceu uma pessoa que me fez voltar a pensar no que dizia meu colega pizzaiolo valadarense. O contato com essa amiga foi, de uma maneira geral, algo do tipo "Oi, sou brasilieira também. Quer ser minha amiga?". Em um local publico ela ouviu que eu conversava em português com minha esposa. Amizade relâmpago que deixou minha esposa muito magoada. Nada de passar a perna ou de se aproveitar, mas foi coisa de mulher mesmo. Coisa de amizade, falsidade e diversos outros fatos bizarros, que terminou chateando minha esposa. Falo sempre pra ela que essa amizade estranha terminou servindo para colocar outras pessoas legais no caminho dela. Coincidentemente (ou nao) essas pessoas legais terminaram se afastando da tal amiga de comportamento questionavel.

Filho, nao fale com estranhos
Acho que aprendi bem aquele conselho que ouvimos quando criança: "nao fale com estranhos". Nao importa a nacionalidade. Talvez se eu estiver a Sibéria e passar por um cara com fisionomia de brasileiro falando português eu possa puxar papo. Talvez. Mas nao o farei em Grenoble, Paris, Tokio, ou onde for. Se a pessoa estiver no meu circulo social, eu tento falar, claro. Nao sou chato de galocha. Apenas chato. Por exemplo, se o compatriota estuda na mesma sala que eu, eu me dirijo até ele e troco idéia, claro. Se for do meu laboratorio, vou trocar idéia sempre, tomar café, falar de futebol, do Brasil, da França, de computaçao ou do que for. Esta "promiscuidade" em fazer amigos é algo natural quando se esta longe da terrinha. Em Manaus por exemplo, existe uma confraria de pernambucanos, que fundou o Galo de Manaus, em homenagem ao Galo da Madrugada de Pernambuco. O maior bloco de carnaval do mundo! Lembram da megalomania pernambucana de que sempre falo?

Quanto à promiscuidade em fazer amigos por aqui, tive algumas experiências traumatizantes, duas delas relatadas a seguir, e uma positiva:

Brazuca chato No. 1
Levei um "/ignore" no primeiro evento de doutorandos que fui no LIG. Fui ver o poster de um cara e ja cheguei perguntando "Você é de que estado? Bla bli". Ele respondeu o que eu tinha perguntado. Depois falou um "da licença" virou as costas e foi falar com sei la quem. Baixei minha cabeça, enterrei o queixo no peito, botei a mao esquerda no bolso, chutei o vento, enxuguei a lagrima com o indicador direito. Dramatico, nao é? Brincadeira. Apenas pensei, com muita raiva: "FDP, e eu perdendo tempo aqui querendo dar uma de simpatico. Por isso nao falo com esses brazucas metidos a merda que se acham alguma coisa por que estudam na Europa". Bom, essa uma teoria de uma amiga de minha esposa que ja voltou para o Brasil, pois ela também teve encontros deste nivel com outros brasileiros. Sei la. De repente nao tem nada a ver. Talvez ele fosse pouco simpatico, como eu. Ou nao. Vai saber...

Brazuca chato No. 2
Depois de dois anos, o trauma de "busca aleatoria de amigo compatriota" passou. Tentei estabelecer contato ano passado com outro homo sapiens sapiens brasiliensis. O especime era especificamente um homo sapiens sapiens brasiliensis australis que aparentemente tentava acasalar-se com uma homo sapiens sapiens norvegiana. Tenho bons amigos mexicanos, que sao da minha equipe, e estavamos na festa de aniversario de outro mexicano. Um deles chegou pra mim e falou "tem um amigo brasileiro teu aqui, vamos falar com ele". Fui até o compatriota que cortejava a gringa, cumprimentei-os e me apresentei. Depois de um dedo de prosa em nossa lingua mae, falei pra ele que meu amigo mexicano sabia falar português. Ele vomitou todo o linguajar polido que eu o havia ensinado. Eram frases complexas, que iam de elogios à mae a questionamentos sobre a sexualidade. Nao tinhamos bebido tanto. O (fingiu que) riu da brincadeira, e trocamos mais meio dedo de prosa. O compatriota revelou-se ser um homo sapiens sapiens brasiliensis australis stupidus e manifestou um pouco de pressa e repelência ao falar conosco. Eu e meu amigo borracho percebemos e nos afastamos. Este me disse "tus amigos brasileños son todos unos pinches culeros", que esta longe de ser um elogio. Ainda bem que eu nao ensinei piada de gaucho, senao a conversa teria sido mais breve ainda.

Brazuca Bacana
Rarissimas sao as exceçoes de eu "falar com estranhos". Uma delas foi no aeroporto de Lisboa. Olhei pra um cara, e do nada perguntei "tas indo pra Recife também?". Sim, ele estava indo. E ele tinha vindo de Grenoble. E tinha dormido no aeroporto de Lyon na noite anterior, igual a mim. Tinhamos tomado o mesmo ônibus Grenoble-Lyon e o mesmo aviao Lyon-Lisboa. E nao lembramos de termos nos visto la. Em Lisboa ficamos conversando, tomamos o mesmo aviao para Recife, mas viajamos em poltronas distantes. Ele voltaria alguns meses depois para um pos-doc de um ano. Passei o endereço do blog pra ele ver se achava alguma informaçao util e mantivemos contato desde entao. Hoje somos bons amigos, ele ja esta de volta à Maceio, e tenho certeza que manteremos contato apos retornarmos ao Brasil.

Nada contra
Que fique claro: nao tenho nada contra brasileiros. Apenas nao sou de fazer amizade em paradas de ônibus/tramway nem sou de procurar comunidades de brasileiros. Para os recém chegados, ou que planejam vir, nao levem em conta minha experiência. Ela é a minha. A de vocês pode ser outra. A brazucada aqui é animada. Busquem as comunidades do Orkut (até quando ele existir) onde o pessoal organiza peladas, churrascos, festas, etc ou vao ao Bukana pub, onde sempre tem evento brasileiro. Mas tentem nao esquecer de que vocês vieram (ou virao) aqui para estudar.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Brasileiros em Grenoble

Grenoble recebe estudantes brasileiros ha um bom tempo. As universidades possuem antigos convênios com a UFRGS, além de outros com outras instituiçoes como USP e varios programas de intercâmbio de estudantes.

Nesta época do ano começam a chegar alguns brasileiros por aqui. Estava eu esperando o tramway B no campus deserto em periodo de férias. Atravessam a linha do tramway três brasileiros: um rapaz e duas moças. Pareciam recém chegados que provavelmente acabaram de abrir conta no Société Générale, pois saiam da agência e falavam em bolsa e nao sei quantos euros e nao sei o que mais. Percebi que eram compatriotas, provavelmente de SP ou PR, dados os erres caprichados. Continuei caladinho lendo la no banquinho da parada mas com dificuldade, pois nòs brasileiros somos muito barulhentos. Chegou outro cara, de mochila, caminhando e fica em pé la na mesma parada.

Depois de um tempo o tramway vem chegando e o trio brazuca fala "esse é o B, mas o C nao aparece no horario ali do painel". O rapaz de mochila que estava em pé, ao lado, fala em português do Brasil: "pra onde vocês querem ir? O tram C nao esta passando aqui". Aih eu falei também, no meu dialeto pernambuquês compreensivel em quase toda Terra Brasilis: "Oxe! Até u dia 21 u terminau dêli é na parada Les Taillées. Vocêr teim ki trocà di tram la, visse?"*. O rapaz do trio brazuca fala, com muito espanto: "Nossa! Todo mundo é brasileiro aqui?".

Bienvenues à Grenoble. Alias, bem vindos à Grenoble. Em português mesmo.

* A bizarra transcriçao fonética nao padronizada é meramente ilustrativa e exagerada. Num total de 9 anos morando fora de Pernambuco e convivendo com brasileiros de diversos estados, meu "sutaki" enfraqueceu, mas continua pernambucano.
Versao em pernambuquês: Essa frase foi so pra arriar, ta ligado véi?

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Headhunters e outra laranja azeda

A Orange é uma empresa de origem britânica que foi comprada no ano 2000 pela France Télécom (FT), uma estatal francesa que ha alguns anos tornou-se economia mista, tendo capital aberto mas com o governo frnacês sendo um dos maiores acionistas. Pequeno parentêses: a FT é aquela empresa que de vez em quando aparece noticia falando da onda de suicidios devido a supressao de empregos supostamente estaveis.

Voltando à laranja, ela é uma marca presente em quase toda a Europa e em expansao na Africa. Apesar da giganteza da FT (empresa ocupando a posiçao 105 no ranking mundial, segundo o Wikipedia), imagino que a marca France Telecom deixara de existir em breve e dara lugar à Orange, tipo a Oi substitui a marca Telemar. Hoje em dia, na França, a Orange é fornecedora de telefonia movel, Internet, VoIP e TV por assinatura, com milhoes de usuarios, além de prestaçao de serviços de consultoria em Informatica. Os laboratorios de pesquisa FT foram rebatizados ha alguns anos e chamam-se Orange Labs (mais um sinal da mudança gradativa para o nome Orange). Sao 18 laboratorios de pesquisa no mundo todo, 8 deles na França, sendo um em Grenoble.

Laranja 1
A Orange é aquela empresa com nome de fruta que falei aqui, sobre o pos-doutorado fechado que declinei. Como parte do processo informal do convite, eu ainda fui no fim de abril apresentar minha pesquisa la. O que fiz no mestrado e continuei no doutorado. Era semana de férias la e ainda assim foi bastante gente assisitir. Depois da minha apresentaçao de 1h15 ainda teve bastante discussao e otimas criticas e sugestoes que me ajudaram na escrita da tese. Ao final, serviu como uma pré-defesa, mas o pos-doc ja estava azedo desde janeiro/fevereiro.

Laranja 2
Coincidentemente, eu estava de passagem no laboratorio hoje e recebi uma ligaçao de uma pessoa da Orange Labs dizendo que viu no calendario de defesas de tese da universidade de Grenoble que eu estava com minha defesa agendada. Ele falou que o meu perfil se encaixava para trabalhar num projeto de pos-doc de um ano para o desenvolvimento de middleware para a Livebox, um modem multifunçao usado para TV, Internet e VoIP (nosso segundo serviço de Internet, descrito neste post) e creio que o produto que é o principal alvo dos projetos de pesquisa, inclusive o da laranja azeda numero 1.

Como o cidadao estava procurando alguém para esta vaga, ele perguntou se eu estava interessado na oferta e se poderia me enviar detalhes. Expliquei que eu estaria sim, mas por uma decisao familiar eu volto para o Brasil apos a defesa da tese. Azedou de novo a laranja. Perguntei até se ele conhecia André, o contato da laranja 1, e ele disse que sim mas que eram de equipes e projetos diferentes. Passei o contato de três outros colegas que seriam potenciais candidatos. Ou é coisa de "destino" querendo que eu fique na laranja, ou realmente é uma mega empresa com um gigante braço de pesquisa com varias oportunidades. Considerando o principio da navalha de Ockham, eu ficaria com a segunda explicaçao.

Headhunters e a Internet
Informaçoes publicadas na Internet ajudam muito a expor o profissional. Graças ao meu perfil no LinkedIn, fui contactado em diferentes momentos por três headhunters oferecendo oportunidades na Irlanda, India e França, respectivamente. A oportunidade da Irlanda era muito tentadora, com uma oportunidade bem no meu perfil e para trabalhar com OSGi (a implementaçao feita na minha tese se apoia nesse "bagulho").

Minha pagina pessoal também serviu para me contactarem. Uma empresa italiana propôs dar um treinamento de MS-Office em Angola, alegando que o fato de eu falar português e estar baseado na Europa me qualificaria. Nao sei de onde vieram com a parte do Office... Tem um caso meio viajado de um(a) chinês(a) que me viu o site pessoal e me contactou pelo LinkedIn também, enviou um email mal escrito em inglês dizendo que gostaria de fazer pos-doc na minha equipe e perguntou se eu poderia dar-lhe uma oportunidade. O inglês da pessoa ta ruim ou ela tem disturbio de atençao, pois se lesse o texto do site e do LinkedIn veria que sou PhD student.

Eu nao tinha duvidas que a Internet é uma otima vitrine profissional, e depois destes contatos aleatorios pude ver que realmente tem gente por aih "caçando cabeças" baseando-se em informaçoes encontradas na rede.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Escolhas

Eu digo que é sempre bom ter-se uma opçao apenas. Porque quando temos mais de uma começa a ficar dificil tomar decisoes. Especialmente quando se esta inseguro. Ja falei aqui que voltaremos para o Brasil apos minha defesa do doutorado. No post anterior falei que o pedido de cidadania francesa furou. Hoje foi a vez de eu declinar um convite de pos-doc. Apenas a carater informativo: pos-doutorado nao é titulo. O grau acadêmico maximo é o doutorado. Logo, esta meio furada a afirmaçao "fulano(a) é pos-doutor(a)". Pos-doc refere-se ao periodo (geralmente entre 1 e 3 anos) passado por um doutor em uma instituiçao de pesquisa (universidade, instituto, departamento de P&D de empresa, etc). Tem doutor que fica pulando de galho em galho fazendo pos-doc por muitos e muitos anos, mas o normal é ficar um ano em um pos-doc e em seguida arrumar algo mais duradouro. Professores doutores também fazem pos-doc (utilizava-se o termo periodo sabatico), servindo pra dar uma atualizada ou aprofundada em alguma area do conhecimento.

Non, merci
Normalmente um doutorando (ou mesmo um recém doutor) rala pra encontrar pos-doc legal. Esse que declinei caiu no colo. Meu orientador falou pra um arquiteto de software do departamento de P&D de uma grande empresa de telecomunicaçoes européia (aquela com nome de fruta) que eu estava acabando a tese e buscava um pos-doc. Ele conhece a tematica com que trabalho, que tem a ver com os projetos do departamento dele. Recebi o convite para continuar com eles na mesma linha de pesquisa de minha tese. Um framework (para os leigos: digamos que seja um software que serve de infraestrutura para fazer outros softwares) deles entrarà em fase de industrializaçao, e eu iria aplicar neste projeto tecnicas que usei na minha pesquisa do doutorado. O projeto pronto potencialmente poderia entrar nos produtos dele a médio prazo, que em alguns anos significaria milhoes de usuarios. Claro que produtos de pesquisa tem sempre grande potencial de serem engavetados e nunca chegar perto do mercado. A possibilidade de milhoes de usuarios é altamente motivadora. Fora o desafio, a grana ia aumentar pelo menos uns 50% em relaçao ao que ganho hoje, que ja nao é ruim pro padrao francês mas também nao é boa, ainda mais para uma familia de 3. Se tivesse abertura pra negociaçao eu até choraria pra ganhar mais. Soube que eles tem varios beneficios, inclusive passagens aéreas baratas.

Mas ja é passado. Tive que declinar, pois entra o lado familiar visto que a nossa decisao é retornar para Pindorama. Minha esposa esta vivendo quase 4 anos aqui na França sem nunca querer ter saido do Brasil. O estranho é que ela gosta daqui, mas nao gosta do fato de estar aqui. Acho que foram os anos mais dificeis da minha vida (e da dela imagino que também). A infelicidade dela era diariamente aparente, com breves momentos de alegria. Depois que ficou decidida a volta, o bom humor dela ficou mais frequente, e o brilho nos olhos dela parece até que aumentou. Uma pena que eu e nossa filha nao sejamos suficientes pra felicidade dela. Pra mim o trio ta otimo. Mas, cada um é cada um.

Valorizaçao dos trabalhos de tese
Ainda nao defendi a tese, mas fico motivado pelo que faço ter uso no mercado. Em uma apresentaçao nao tanto acadêmica que fiz em 2009, uma pessoa se interessou pelas técnicas que proponho. Fiquei desconfiado se o cara realmente tava interessado. Achei que ele estava louco em pensar que o que eu fazia era interessante. Hoje ele aplica essas técnicas no produto em desenvolvimento na empresa start-up que ele criou, e atualmente eu e meu orientador damos consultoria pra esta empresa através de um contrato formal com nosso laboratorio.

Voltando para o Brasil provavelmente terei que fazer outra coisa. Minha pesquisa atual nao tem espaço no mercado brasileiro, que normalmente usa tecnologia pronta ao invés de desenvolver. A interaçao universidade-mercado na França nao é tao forte como nos EUA, mas é bem mais avançada que no Brasil. Por incrivel que pareça, a impressao que tenho da academia brasileira é que predominam abordagens cientificas e formais, enquanto na França (e na Europa em geral) vejo tanto isso quanto pesquisas aplicadas diretamente no mercado.

Sem precisar fazer lobby nem correr atras de nada, a tal "valorizacao dos trabalhos de tese" (um termo que usam aqui na França) aconteceu meio que naturalmente. Muita gente trabalha em pesquisa de doutorado durante 3, 4 anos, defende, engaveta a tese e nunca mais se fala naquilo. Antes mesmo de terminar a minha ja pude fazer reais contribuiçoes. Tenho (ou tinha) um grande complexo de inferioridade por ser aluno de universidade privada tentando se meter em meio acadêmico. O fato de vir a um pais de primeiro mundo, poder dizer "olha, vocês poderiam fazer isso assim" e te darem ouvidos me deixou bastante satisfeito. Essas pequenas vitorias me ajudaram a superar esse trauma e melhorar minha autoestima.

What if
Mas, em nome da familia, agora é hora de eu abrir mao de algo. O processo de auto sugestao hipnotica alienante power plus plus de me convencer para a volta esta tranquilo. Eu acho (percebam como estou decidido). Estou convencido de que quero voltar agora. Claro que sim! o boom economico do Brasil, os concursos, investimentos no Nordeste, o legado de Lula. Eh agora ou nunca! * pausa* Cada vez mais acho que este post é parte do trabalho de autoconvencimento, autoconformaçao, autoetc para "eu mesmo me auto justificar para mim". Bom, se eu nao voltar fico sem familia pois minhas meninas voltariam sem mim. Se é pra voltar, tenho que querer, ou ao menos me convencer que agora é a boa hora. *fim pausa* Mas, o plano atual de retornar e prestar concurso de professor adjunto em federal vai ter que esperar devido a noticia que vi hoje dos cortes que o governo fez no orçamento de 2011 (preciso tirar os concursos da lista acima). Coincidência bizarra de acontecer isso no dia que eu recuso um pos-doc legal. Sem previsao para concursos, é hora de traçar o plano D e talvez buscar emprego de novo no mercado brazuca, rasgando o diploma de doutorado que ainda nem tenho pois doutorado nao serve de nada nesse mercado de onde vim.

Entretanto, ficara pra sempre a duvida do "e se eu ficasse um pouquinho mais de tempo na França, até onde iria tudo isso?" (isso me lembra o what if das historinhas da Marvel). Afinal, nao tenho vinculo com Capes nem CNPq que me obrigue a voltar. Um aninho a mais, daria tempo pra tirar cidadania, juntar mais uns eurinhos pra voltar e quem sabe dar mais umas turistadas pelas redondezas. O problema também é que ficando, no futuro surgirà o "e se tivessemos voltado logo apos o fim do doutorado?".

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

15 assinaturas para 3 anos de doutorado

Dà-lhe burocracia!
Desde que comecei o doutorado assino um monte de papéis diferentes por ano para poder receber os eurinhos mensais e comprar a baguette e o camembert de cada dia. Explico as razoes da demasiada papelada.
Estamos na burocràtica França. Como dizem por aqui, pourquoi faire simple quand on peut faire compliqué? (algo como "por quê fazer o simples quando se pode complicar"). A universidade segue à risca esse ditado. Como o visto de permanência temporaria (titre de séjour) demora um pouquinho a sair, isso afeta tudo que é contrato que tenho que assinar. Normalmente se recebe da prefeitura um documento provisorio, chamado récépissé, e até o titre de séjour sair tudo fica provisòrio (pelo menos para o ano letivo em curso).
Apesar de eu ter uma bolsa de três anos, a renovaçao dela é anual, assim como o visto. Entao vamos à sequência:
  1. A escola doutoral de informatica (MSTII) me emite uma attestation d'accueil, que me dà direito à um titre de séjour scientifique
  2. Assino e levo o documento para o departamento administrativo da universidade (UJF)
  3. Encaminham para o presidente (reitor) da universidade
  4. O reitor assina
  5. Sou notificado que o documento esta assinado
  6. Busco a bendita attestation d'accueil
  7. Levo-a até a prefeitura, junto com a papelada de praxe para renovar o titre séjour
  8. Aguardo duas semanas para o récépissé chegar pelo correio
  9. Levo uma còpia do récépissé para a MSTII
  10. Emitem um Procès verbal (PV) d'installation com a validade do récépissé (cerca de 2 meses)
  11. Assino e levo para o administrativo da UJF

Pronto, esta parcialmente resolvido o problema. Como sou monitor, ainda tenho outro contrato em paralelo com o Ensimag/Grenoble INP. Ai vao os 3 passos:
  1. Levo copia do récépissé para o administrativo da Ensimag
  2. Emitem meu PV temporario
  3. Sou notificado que o documento esta pronto e vou assinar
Pronto. Bem mais simples. Isso garante o resto da merreca mensal. Com o "faz-me rir" garantido por 2 meses, o titre de séjour chega nesse meio tempo. Volto a fazer a grande jornada maçante:
  1. Levo uma còpia do titre de séjour para a MSTII
  2. Emitem o Procès verbal (PV) d'installation definitivo (para o resto do ano letivo)
  3. O diretor da MSTII assina
  4. Assino e levo para o administrativo da UJF
Em paralelo, repito os três passos com a Ensimag:
  1. Levo copia do titre de séjour para o administrativo da Ensimag
  2. Emitem meu PV definitivo para o ano letivo
  3. Sou notificado que o documento esta pronto e vou assinar
Resumindo, 5 documentos que tenho que assinar por ano com a UJF e Ensimag para poder receber os salarios. Serà que precisaria de tanto?

domingo, 5 de setembro de 2010

Estudar em Grenoble sem falar francês

Nao saber falar francês nao é desculpa para tentar estudar na França, ou em outros paises onde o inglês nao é lingua oficial. Algumas universidades oferecem cursos ministrados em inglês. Isso é pratica comum em paises como Finlândia e Dinamarca, por exemplo. Na França ja ha algumas universidades fazendo o mesmo. Aqui em Grenoble, a Ensimag (école d'ingénieurs informatique mathématiques appliquées de Grenoble), onde dou aulas como monitor, oferece o Master of Science in Informatics at Grenoble, um mestrado em computaçao onde todas as aulas sao ministradas em inglês. No inicio deste ano ministrei algumas aulas de Banco de Dados, pra "apagar incêndio" e adiantar algumas horas de serviço. Vi que eram poucos alunos mas de lugares bem variados: Italia, Siria, Rep. Tcheca, Mexico, Eslovaquia, França (sim, franceses fazendo universidade "in english" em seu proprio pais. Verrry differrrrent). Grupos pequenos podem ter melhor aproveitamento tendo melhor assistencia dos professores. Acredito que esse seria um ponto forte desse mestrado, em que o efetivo de alunos por disciplina raramente chega a 10.

Why not Grenoble?
Um amigo que trabalhou comigo no Brasil estava tentando mestrado em outro pais, e sugeri a França pra ele. O mestrado acima, pra ser mais especifico. O fato de nao falar francês nao era desculpa. Citei as vantagens, como:
  • mensalidade gratis (apenas taxa anual em torno de 200 ou 300 euros)
  • qualidade da Ensimag, tida como uma das melhores escolas de engenheiro de computaçao da França
  • inserçao em outro pais que serviria de "trampolim" para o mercado de trabalho europeu
  • possibilidade de continuar em doutorado com financiamento local
Entretanto, vir sem bolsa significa ter que arcar com as proprias despesas, que ficam em torno de 500 Euros/mês para solteiros, segundo dados estatisticos. O valor pode variar dependendo da pessoa. Estudantes tem permissao de trabalhar o equivalente a meio expediente, mas cumulativo (ex: trabalhar apenas 4 meses do ano mas em tempo integral). O inglês nao foi desculpa, e ele e a namorada conseguiram ser selecionados depois de enviarem toda a papelada ha alguns meses. Em alguns dias desembarcam por aqui, e além de torcer tentaremos ajuda-los no que for possivel.
Bon courage! Ou melhor, Good Luck!

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Iniciando o fim

Voltamos à Grenoble para mais um ano. Certamente nosso ultimo do lado de ca. Minha esposa nao quer mais brincar de nômade e voltamos em definitivo para a Terra Brasilis no ano que vem. Confesso que houve momentos de tensao para trazê-la de volta pra ca. Sorte que nao foi drama no aeroporto, do tipo "nao quero ir" e sentar no chao fazendo birra e biquinho.

Ultimamente nao tenho escrito posts de utilidade publica, que em geral tem servido de fonte de informaçao pra varias pessoas. Depois que desarrumar as malas e fazer o planejamento para o ano letivo que começa (sim caro leitor, o ano letivo aqui inicia em setembro mesmo) retomarei o serviço de informaçoes aleatorias deste blog. Tenho varias duvidas sobre entregar apartamento e esperar devoluçao de deposito de cauçao, envio de bagagens, fechamento de conta, etc. Ainda falta ao menos um ano pra tudo isso, mas tentarei postar coisas desse tipo à medida que for colhendo informaçoes.

* Mais um post escrito com teclado azerty

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Custo de Vida na França

Conversando com um leitor do blog, que hoje é contato no GTalk e de vez em quando trocamos uma idéia, estàvamos falando de custo de vida em Grenoble.
Ele estava com duas ofertas de bolsas de doutorado européias e uma grande dùvida entre vir pra a França (aqui em Grenoble especificamente) ou pra Alemanha, respectivamente. Dei algumas informações sobre o custo de vida daqui pra ele poder ter uma idéia. Isso deu a idéia de postar algo do tipo no blog.

Muita gente diz: "Nossa! Na França tudo é muito caro, coca-cola na rua custa 8 reais."

Esta frase està parcialmente correta. Na França realmente o custo de vida é alto. Entretanto, a moeda corrente é o EURO, e o custo de vida é também na mesma unidade monetària. Sem dùvida é inevitàvel para nòs estrangeiros tentarmos fazer o câmbio constantemente pra ver se a compra "vale a pena" em relação ao nosso paìs de origem, seja com uma coca-cola (que no supermercado custa umas 4 vezes menos), uma roupa ou um kilo de carne (esse nunca vale a pena aqui...).

Custo de vida é muito relativo. Alguns fatos da França:
Salàrio mìnimo = 8,71 €/h
Jornada 35 h/semana (não, o normal daqui não é 40) = 1337.70 € bruto = 1050 € lìquido.
Linha de pobreza = 817 € mensais (solteiros) e 1300 € para casais.
Valor mìnimo necessàrio para estudantes = +/- 500 € mensais.

Na época que eu tirei o visto pra cà (2007) o consulado francês dizia que um estudante precisava comprovar (seja bolsa de estudo, mesada da familia, poupança, etc) recursos mensais de cerca de 500 euros, para poder provar que teria como se manter.

O bàsico da vida do estudante aqui:
- Moradia
- Transporte
- Saùde
- Alimentação

Alguns valores, relacionados aos itens acima:

Moradia

Alguns detalhes de procurar apt. postei aqui. Aluguel pode variar de 400 a 750€, considerando studios ou apt. de 1 ou 2 quartos. Solteiros podem beneficiar de res. universitàrias, bem mais em conta. Mas tem a ajuda do auxìlio moradia, pra amenizar.

Transporte
Tem preços de Grenoble aqui nesse post
Bicicleta é um transporte muito comum na Europa, além de ser bem econômico. Em dois anos aqui, economizei pelo menos uns 300 € de passagem. Até na chuva eu ia (confesso que não é muito legal pras pessoas que usam òculos, como eu).

Saùde
As universidades te obrigam a ter o seguro da cobertura mìnima. O meu hoje em dia vem descontado em folha, mas as "formulas estudante" (até 26 anos) são pagos de uma sò vez, custando uns 300 por ano. Dêem uma olhada nesse post pra ver as razões de ter a cobertura complementar do seguro de saùde.

Alimentação
Refeição universitària no ano letivo 2009-10 està por 2,90€. Não é tão ruim assim, o preço é baixo devido aos subsìdios do governo.
Fazer compras no mercado pode variar de 20 a 2000 euros por semana. Depende do que você quer comer. Aqui tem iguarias carìssimas, e uma gama de produtos imensa. Façam seus càlculos. Cada um sabe onde seu cinto aperta. Alguns mercados do grupo marba (marbarato):
Mas e o lazer?
Deixei lazer de fora da lista bàsica, pois vive-se sem lazer, apesar de ser chato. Além disso, lazer varia muito dependendo de cada um. Como sou muito caseiro, não sou o melhor referencial para dar preços da night.
Alguns preços avulsos:
- Cinema: +/- 7 €estudante
- Cerveja em bar: +/- 3 €
- Jantar: uns 15 €, sendo otimista. Se pedir entrada, prato principal, sobremesa e uma bebida pode sair bem mais que isso. Mas isso varia muito de restaurante pra restaurante. O Casino Cafeteria ou uma pizzaria podem ser uma opçao marba, saindo a menos de 10 euros.

Além de receber os outros em casa e ir à casa dos outros, o lazer maior pra nòs aqui é viajar, que acho meio carinho mesmo na formula estudante. Passagens das low-cost são quase sempre mais em conta que viajar de trem. Pra quem quiser dar uma sondada:
1o. mês = $$$$$
Para os que pensam em vir estudar aqui, lembrem-se que o primeiro mês é o mais custoso (matrìcula, depòsito de caução do aluguel, seguro saùde, pra citar os mais caros). Abram suas planilhas de càlculo e vejam quanto a brincadeira vai custar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Prorrogação de titre de séjour de estudantes

Para que não levem tão ao pé da letra a parte da minha permanência "ilegal" relatada nos ùltimos posts de uma forma talvez meio dramàtica, explico alguns detalhes:

1- O titre de séjour ainda é valido por 30 dias apòs a expiração, mesmo se não tiver ainda o récépisse. Isso é normalmente vàlido para quem està se reinscrevendo para o ano letivo seguinte (o meu caso e de minha esposa)
2- No ùltimo ano do Master ou do doutorado, o estudante pode pedir uma prorrogação da validade de seu titre de séjour, com uma antecedência de 2 a 4 meses preferencialmente. O governo lhe dà a chance de procurar emprego nesse tempo. Um amigo turco fez isso no Master e outro colombiano fez pro doutorado.

Obviamente preferem (ou talvez preferiam antes da crise que estourou em 2008) que você fique, pois o dinheiro do Estado foi investido na educação do estrangeiro. Creio que essa història foi coisa de Sarkozy quando era ministro do interior.

Realmente, o estudante indo embora vai junto com ele alguns milhares de Euros. Melhor ele ficar e trabalhar pra pagar, não? Mas também, ao partir ele leva junto um certo "laço" com a França, o que serve para futuros negòcios. Estabelecer parcerias técnico-cientìficas com a universidade onde ele estudou, aceitar propina da Alstom, comprar os aviões caça mais caros do mercado (Rafale), etc.

Lamento pela falta de fontes para endossar a veracidade dos itens 1 e 2 acima. Dêem uma procurada sempre, pois esse tipo de lei/emenda/medida muda com frequência.

Mais um post que teria um paràgrafo e esticou bastante...

domingo, 4 de outubro de 2009

Ilegal e sem salàrio

Ano passado dei o velho "jeitinho" brasileiro, e adiantei rapidinho a minha papelada de récépissé, titre de séjour, etc. Tinha dado entrada na renovação de meus documentos apenas com email de aprovação de bolsa e com a candidatura de tese assinada pelo orientador e pelo diretor do LIG. Não entreguei a papelada requisitada (a tal de convention d'accueil), mas disseram na prefeitura que poderiam dar entrada no processo, entretanto o titre de séjour sò sairia depois que eu entregasse os docs solicitados. Ou seja, o jeitinho funcionou dentro da legalidade. A secretària da universidade responsàvel por receber minha papelada ficou surpresa quando entreguei pra ela o documento temporàrio e me disse que o salàrio ia entrar direitinho no final de outubro (esse era meu objetivo).

Esse ano fiz tudo dentro do ritmo da màquina burocràtica francesa, deixando-a funcionar normalmente. Travou! Impasse administrativo devido a uma mudança na inscrição do doutorado. Agora é direto com a universidade ao invés de fazer com o departamento de matemàtica e computação. Sem inscrição eu não tinha documento. Mas não abriam as inscrições. Là vai eu ter que arrumar tudo, dando "jeitinho" de novo mas depois de três semanas. Por quê não fiz assim logo no inìcio?
Resultado: estou temporariamente ilegal e meu salàrio vai atrasar pois não tenho a renovação do titre de séjour.
Conclusão: Quando não estiver fraudando nada, sempre usarei o jeitinho brasileiro.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Dicas para o primeiro ano de tese


Apressados podem clicar aqui

Durante três dias consecutivos, no verão e todos os anos, a equipe onde faço pesquisa tem uma reunião em algum hotel de uma montanha da região de Grenoble, quase sempre no Sappey-en-Chartreuse. No segundo dia à tarde, pra quebrar o ritmo, uma caminhada na montanha. Neste post uma foto do Dent de Crolles, ao fundo, tirada do topo da montanha onde subimos.

Apesar de muito bacana, o objetivo não é o passeio, mas sim sair do ambiente de trabalho e se integrar durante os três dias, discutindo e criticando o trabalho de cada um. Uma espécie de mini conferência interna. Muito interessante a iniciativa e bastante proveitosa.

Cada doutorando apresenta o que fez durante o ùltimo ano (lembrando que ano letivo inicia em setembro), e dà uma idéia ràpida do que farà no ano seguinte. Alunos (estranho imaginar que daqui a dois anos deixarei de ser aluno...) no primeiro ano, como eu, tinham de 20 a 30 minutos. Eu estourei pra 1 hora, de propòsito. Achei o formato das apresentações muito técnico e seco, então antes de apresentar meu tema de tese, compartilhei minha experiência no primeiro ano de tese trazendo questões nunca abordadas nem naquela reunião nem nas anteriores:
Quais as dificuldades dos estudantes de primeiro ano de doutorado? Quais as angùstias? Serà que é normal não ter um tema ou não ter certeza dele? Como escrever um artigo (de qualidade aceitàvel)? Como mostrar que se faz pesquisa numa equipe com reputação de "engenheiros programadores"? Como aproveitar meu tempo sem "boiar" tanto? Entre outras questões existenciais de um doutorando.

Neste primeiro ano passei por tudo isso, e ainda não tenho certeza direito do que faço como tema, e uma série de outras questões. Pesquisei e li muita coisa na Internet. Prometi que iria enviar os links mais ùteis para o pessoal da equipe, e acabei criando um pàgina em meu site pessoal (ou seria profissional?) com esses links e minha experiência do primeiro ano. Começo a ter a impressão que gosto de escrever, apesar de demorar pra dizer alguma coisa. Esse post , por exemplo, estava previsto para um paràgrafo... Certamente o twitter não é para mim.
Segue novamente o link com as dicas para o primeiro ano de tese (escrevi em inglês para ter utilidade para um nùmero maior de pessoas)

sábado, 5 de setembro de 2009

Procurar moradia em Grenoble

Este post é pra registrar o que vàrias pessoas jà me perguntaram. Gente que vem, jà veio ou pensa em vir pra Grenoble, e também aqueles gostariam de saber o preço de aluguel por aqui apenas por curiosidade. Aos googleiros: algumas das informações e links servem para outras cidades da França.

A melhor época

O ano letivo começa em Setembro/Outubro e termina em Junho. A época boa pra procurar apartamento é em julho (estudantes estão indo embora) ou agosto (as aulas ainda não começaram e boa parte dos estudantes ainda não chegou).

Decifrando letras e nùmeros

Isso serve pra toda França. Ao procurar apartamento as pessoas se deparam com T1, T2, T3, F1, F2, F3 e ficam "viajando" sem saber o que é. T é
type e F é forme. Se existe uma diferença entre o T e o F, não està clara. Todo mundo diz que é a mesma coisa. O nùmero do lado é quantas peças tem no imòvel (contando com a sala). Um T1 ou F1 é um studio (não tem quarto). Um T2/F2 é um apartamento de 1 quarto e assim segue. Para castelos e mansões deve complicar utilizando esse padrão pois existem vàrias salas ;)
Outra sigla que tem é TCC (
Toutes charges comprises)

Boas opções para os solteiros

Residência universitària
Existem vàrias residências universitàrias em Grenoble, a maior parte dentro do Campus mesmo. Elas são administrada pelo CROUS (pronuncia-se crus, com aquele R escarrrrrrrado). O pessoal de intercâmbio que vem pra Grenoble geralmente fica num quarto de res. universitària. Existem umas melhores que outras. Melhor entrar em contato com quem morou nelas saber quais as mais legais. O valor não sei precisar, mas acho que em torno de 200 euros.

Se for um jovem casal, esqueça a opção acima.

Colloc
Um detalhe pra os solteiros: se sua bolsa tiver um valor que dê condições de pagar um aluguel de apartamento, o CROUS não te aceita. Um amigo meu là do laboratòrio teve seu pedido rejeitado. Então ele escolheu morar em colocação (dividindo apê com outros), que é uma boa opção. Pode-se morar muito bem, pagando menos que morando sò. Existem vàrios anùncios de colloc. A associação EVE, que fica no campus, organiza um "speed dating" onde pessoas se conhecem na hora e se organizam pra dividir apartamento. E, por falar em EVE, vale a pena associar-se. São 5 euros por ano, que dão desconto de 1 euro na cerveja grande. Com 6 cervejas você jà tà no lucro! Sim, existe um bar dentro do campus. Se não me engano, além desse desconto também tem direito a entrada gratuita nos shows que tem là. Mas, não tenho certeza, eu sò vou là pra tomar cerveja :)

Para os casados (e solteiros que queiram o seu pròprio apê)

Voltando para o meu mundo de um jovem casal (jà nem sei se sou tão jovem assim), ano passado nossa busca foi por esses dois sites, tendo contato direto com os proprietàrios dos imòveis:
http://www.paruvendu.fr
http://www.kijiji.fr

*Esse ano agregamos mais dois à nossa busca (atenção aos anùncios que aparecem em mais de um site):
http://www.leboncoin.fr
http://www.vivastreet.fr

Tem sites de imobiliàrias também, mas eles cobram uma taxa que fica pròximo de um mês de aluguel:
http://www.fnaim.fr
http://www.prefecture-immobilier.com/ (um brasileiro que conheci alugou por essa imobiliària e me passou esse link)

Os links acima são legais para ter uma idéia de preço.

Outra opção
Ir pessoalmente em agências que vendem uma lista com endereços e fones dos clientes que estão colocando apartamento pra alugar. Eu fiz isso logo que cheguei, e paguei 150 euros na lista. Achei a maior roubada, mas eu tava desesperado pra alugar, não conhecia ninguém aqui e estava morando num albergue (brasileiros classe média se espantam com essa palavra, mas um dia eu posto sobre esta maravilhosa e geralmente barata alternativa a hotéis).

Mais uma opção em Grenoble
Ir ao Espace Logement Étudiant que todos os anos fica montado no Pôle Jeunesse (6 boulevard Agutte Sembat), do meio de agosto ao meio de setembro. Là você encontra pessoas para te orientar e um mural com vàrios anùncios. Eu fui là muitas vezes na época que cheguei (2007). Muitos dos que liguei perguntavam se eu tinha garant (o fiador), que eu não tinha. Muitas opções foram descartadas. Fui na CAF pedir um tal de Locapass que funciona como substituto do fiador, mas pra isso você precisa justificar salàrio/bolsa, e na época eu também não tinha. Depois de três dias de frustração, o desesperado aqui comprou a listinha mencionada anteriormente.

Contrato de aluguel
Chamam aqui de contrat de bail ou contrat de location. Importantìssimo pra sua vida aqui.
O primeiro apartamento nosso foi contrato de duração de 1 ano. O atual é de três anos. Na hora de ir embora, precisa avisar com antecedência de 1 mês para aparamentos mobiliados ou 3 meses para apartamentos vazios.
Outra informação importante: ao assinar o contrato, precisa dar o déposito garantia de 1 mês. Ou seja, no primeiro mês de aluguel você paga dobrado.
Em caso de dùvidas contratuais, tem uma associação dos inquilinos (não estou certo mas acho que o nome é association des locataires) aqui em Grenoble que fica na Maison des Associations na esquina da Boulevard Gambetta com a Rue Hoche.


Eu pensava que o post ia ser breve apenas com links. Mas não teve jeito...

*Editado em 07/10/09

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Seguro Saùde na França

Aproveito o feriado (sim, o feriado da Pàscoa na França é na segunda DEPOIS do domingo de Pàscoa) e escrevo um post de um fato da semana passada. Para os googleiros acidentais buscando info sobre seguro saùde/assitência médica na França, leiam com atenção a primeira e a segunda parte.


1. Funcionamento Geral

O seguro saùde aqui é dividido em duas partes:
- Couverture de base: Reembolsa 70% dos gastos
- Mutuelle: Reembolsa de 25% a 30% restantes

A mutuelle é opcional. Você pode ter a couverture de base apenas, e pagar os 30% toda vez. O normal é ter os dois.

Baseado na nossa experiência, jà tivemos o reembolso no seguinte:
- Consulta médica
- Exames
- Atendimento de urgência
- Medicamentos com receita

Procedimentos cirùrgicos também são cobertos, mas felizmente não precisamos e espero não precisarmos.

O segurado precisa ter um Médecin Traitant (um clìnico geral), que é o seu médico oficial. Você deve sempre se dirigir à ele quando tem alguma coisa, para que ele te encaminhe a um médico especialista se necessàrio. Ir direto a um especialista sem o encaminhamento dà uma multa. Acho que o valor atual é metade do valor consulta.

2. Estudantes estrangeiros
Permanência superior a 3 meses implica em ter o seguro.

2.1 Menor de 28 anos
O seguro é feito geralmente com a SMERRA ou a LMDE. Algo em torno de 300 euros por ano. O estudante terà um nùmero provisòrio de Securité Sociale.

2.2 A partir de 28 anos
Cheguei aqui com esta bendita idade fronteiriça. Neste caso, tive que ir direto com o òrgão do governo (CPAM-Caisse Primaire d'Assurance Maladie) que cuida disso. Franceses desempregados ou que tem renda baixa também vão là. No meu caso era estudante estrangeiro e desempregado, pois eu não tinha bolsa. Eles fazem um càlculo baseado nos rendimentos do ano anterior (entreguei uma declaração escrita à mão). Achei que seria de graça. A grande vantagem de ser maior de 28 anos é que você ganha um nùmero de Securité Sociale vàlido, que depois facilitou muito meu processo da bolsa. Outra coisa é que pode ser que saia de graça. Tivemos que pagar pela couverture de base ( 70% ) e não tivemos direito aos 30% da mutuelle do governo. Quando virei bolsista, ganhamos cobertura de base da MGEN que é debitada diretamente do salàrio.

A CPAM nos deu nossa Carte Vitale, que dà o desconto diretamente nos hospitais, médicos, laboratòrios e farmàcias equipados da màquina que lê este cartão. A maioria deles tem esse equipamento. Quando não, temos que pagar e eles nos dão um formulàrio que devemos entregar ao nosso responsàvel da couverture de base. Mudamos pra MGEN e o cartão permaneceu o mesmo (bom, o meu deu pau na atualização e pedi outro, mas o da minha esposa funcionou).

2.2.3 Inclusão de cônjuge
A França é bem burocràtica. Tão burocràtica que os funcionàrios não sabem direito as regras. Na sede da CPAM de Grenoble disseram que minha esposa não poderia ser segurada comigo pois o visto dela era de acompanhante. Apenas o estudante seria assegurado. A doce senhora foi um pouco rìspida: "Ela veio por escolha pessoal. Procure um seguro privado". Acho que a titia nunca casou para dizer uma coisa dessas.
Ao me dirigir ao centro CPAM do meu bairro, insisti e levei novamente os documentos da minha esposa. A funcionària não soube responder, chamou um colega, que disse que poderia. Minha esposa ficou assegurada, sem problema. Aquele negòcio de "eu sou brasileiro e não desisto nunca".

3. Seguro morreu de velho
Semana passada minha esposa precisou ficar no hospital devido a uma crise de asma. Motivo: poluição de Grenoble e o pòlen das flores com a chegada da primavera. Chegou na urgência às 8:00 e saiu no outro dia ao meio-dia. Total da internação: 1100 (mil e cem) euros. Não tìnhamos mutuelle. Medicamentos: 128 euros. Não tìnhamos mutuelle.
No outro dia fui fazer a inscrição na mutuelle da MGEN, pra evitar outros problemas desse no futuro.

Essa mutuelle paga pelas lentes dos òculos também. Vou testar isso mês que vem, quando começa a valer nossa mutuelle. Jà que estamos pagando né?

sábado, 20 de dezembro de 2008

Férias de fim de ano

Estamos em "Vacances de Noël", que no bom português significa férias de Natal. São duas semanas: Natal e Ano novo, respectivamente. Universidades reabrem apenas no dia 05 de Janeiro.

O calendàrio escolar de boa parte dos paìses do hemisfério norte é um pouco diferente do que utilizamos no Brasil, onde sincronizamos o ano letivo com o calendàrio. O primeiro semestre do ano é o primeiro semestre letivo. Aqui na França é diferente, e creio que seja mais ou menos a mesma regra para a grande maioria do hemisfério norte: o primeiro semestre letivo começa em setembro (fim do verão), e o segundo semestre em fevereiro (metade pro fim do inverno). Não tem férias longas de 1 mês igual temos no Brasil em Junho. As férias são dadas em doses homeopàticas:
  • Fim de Outubro: 1 semana de toussaint (todos os santos), referente ao dia 31 de outubro
  • Fim de Ano: 2 semanas (Natal e Ano novo)
  • Fim de Fevereiro: 1 semana de férias de inverno
  • Abril: 1 semana de férias de primavera. O famoso spring break nos paìses anglòfonos. Ano que vem coincide com a pàscoa mas não sei se é sempre assim.
  • Julho e Agosto: Férias de verão, que vem logo apòs o final do ano escolar. O equivalente pra nòs brasileiros às férias de Dezembro e Janeiro (Verão no hemisfério sul)
Somando tudo, são 5 semanas (excluindo as férias de verão). Doutorandos tem direito a um mês de férias, geralmente no verão, que não tem nada a ver com as semanas acima. Não somos obrigados a tomar as outras doses homeopàticas de férias, mas no inverno a maioria dos labs de pequisa do campus fecham, ou no caso do prédio onde fico, desligam o aquecimento central. Logo, o cidadão quando não pode ir trabalhar, não tem condições para tal. Somos forçados a tirar férias, e com isso temos 6 semanas de férias!
As outras doses homeopàticas podem ser tomadas com moderação, podendo estender o total das férias para 7 semanas.
Pode parecer bastante folga, mas eu trabalho em casa frequentemente à noite e fim de semana. O saldo no final é bem menos que 7 semanas.
Mas esse fim de ano, prometo que as férias serão minha ocupação principal. A esposa merece.
Bom Natal e Ano novo a todos!

domingo, 2 de novembro de 2008

Mudança de categoria de titre de séjour

O ano letivo por aqui começa em setembro/outubro, e geralmente nessa época é o momento dos estudantes originàrios de paìses fora da Comunidade Européia renovarem o titre de séjour, documento que permite aos estrangeiros permanecerem na França.

Eu e minha esposa mudamos nossa categoria de titre de séjour, respectivamente:
- de étudiant para scientifique
- de visiteur para étudiant

A minha mudança é mais uma questão burocràtica, devido ao tipo de bolsa de estudos que tenho. Não sei qual a categoria do titre de séjour dos brasileiros com bolsas CAPES e CNPq, mas meus colegas de equipe estrangeiros possuem outro tipo de financiamento e o titre de séjour de estudante.

A informação importante que gostaria de documentar aqui é a mudança de titre de séjour visiteur para étudiant. Talvez esclareçam isso nos sites da embaixada, mas o que encontramos é que aqueles que vierem sem visto de estudante (ex: fazer algum curso que dure atè três meses) não precisam de titre de séjour, e se precisarem estudar mais tempo precisam dar entrada naquele visto, que implica em fazer junto à embaixada do seu paìs de origem, e conseauentement voltar, gastar mais tempo e dinheiro, pra depois obter o titre de séjour na França. Não vi nada dando informação em relação ao cônjuge, a ùnica coisa que informaram era que ela poderia estudar como visitante.

Com a categoria visiteur minha esposa conseguiu ser aceita em uma universidade francesa (pedem apenas que a pessoa esteja "legalizada", exatamente como nos informaram). Entretanto quem tem titre de séjour étudiantdireito a trabalhar até 964 horas anuais. No caso dela não seria possìvel trabalhar com o titre de séjour étudiant, mesmo estando inscrita na universidade. Ao renovar o titre de séjour este ano, ela pediu a mudança para étudiant. Como comprovante de recursos financeiros apresentou minha papelada da bolsa de estudos, e tudo deu certo, dentro da lei.

Resumindo o post, duas informações ùteis para quem vem à estudar na França e traz seu cônjuge com visto "visiteur":
  1. É possìvel se inscrever numa universidade (no caso dela, jà possuìa curso superior no Brasil e fez equivalência de disciplinas para ser aceita aqui) mesmo como visiteur
  2. É possìvel fazer o "upgrade" de visiteur para étudiant, que dà direito à trabalhar até 964 horas anuais.
A primeira dica demos pessoalmente para um casal que conhecemos aqui, e poucas semanas depois a esposa do estudante conseguiu ser aceita no Master de uma universidade que tinha um curso equivalente ao dela.

Espero que estas informações possam servir para mais gente.

* ATUALIZAçAO IMPORTANTE (07/05/2011)*
Aproveitando um comentario que fiz aqui hoje, agrego a seguinte informaçao ao post:
Cônjuge de Scientifique tem direito a jornada de trabalho INTEGRAL. Portanto, por falta de informaçao foi burrice mudar o titre de séjour de minha esposa para étudiant. Ela teria mais direito (a trabalho) como cônjuge de scientifique.

Liçao aprendida: Nunca 'ache que'. Pergunte antes de achar qualquer coisa :)

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Eu sou brasileiro e não desisto nunca

Até o presidente jà falou isso. Agora é minha vez de usar jargões batidos para expressar minha alegria.
Quem ri por ùltimo ri melhor.
Quem colhe planta.

A pequena longa història de meu trajeto iniciou-se hà um ano e meio. Decidi que precisava mudar, mas se mudasse de emprego ia ficar na mesma, apenas num emprego diferente. Enquanto pesquisava para a monografia da pòs da UEA, bateu vontade de experimentar um pouco o mundo da pesquisa acadêmica. Venho de universidade particular, e tive que estagiar e trabalhar pra ajudar minha mãe a pagar as mensalidades, e com o tempo ir assumindo totalmente o gosto salgado do estudo privado. Na hora da iniciação cientìfica, optei por um estàgio em empresa de desenvolvimento de Software. Sabia que com alguns meses estaria ganhando bem mais. Então, agora era a hora. Resolvi que ia estudar fora. Minha esposa não curtiu muito a idéia no inìcio.

Escolhi com quem e onde queria fazer pesquisa. O destino é engraçado, tinha acabado de me matricular no francês pensando numa possibilidade remota de imigrar para o Quebéc (Canadà). A França terminou sendo o paìs de destino acadêmico...
Era preciso fazer a candidatura para as duas universidades, e se eu fosse escolhido precisava de um teste atestando minha proficiência no francês. Que proficiência? Eu era nìvel 1. Zerado. Comecei a queimar pestana e virei autodidata. Precisava atingir o nìvel intermediàrio. Viva a Internet e seus recursos

Uma sèrie de palavras desestimulantes poderiam ter abalado meu curso se eu tivesse dado ouvidos aos outros:

1 - Viajei em Abril de 2007 de férias pra Belém, e fui na Aliança Francesa de là me informar sobre o teste. Manaus não aplicava o TCF. A funcionària que me atendeu disse que era melhor eu fazer o teste no ano seguinte e falou que eu não iria atingir o nìvel desejado se fizesse naquele momento.

Mandei os dossiês de candidatura mesmo assim. Eu acreditava em mim, mas no fundo sabia que podia dar errado. Por que não tentar?

2 - Fui pra São Paulo um mês e meio depois fazer o teste. Até então ninguém sabia desta "loucura" que eu estava cometendo. Encontrei-me com dois amigos de faculdade que estavam morando là hà algum tempo, e contei porque estava em SP, o lance do teste etc. Um deles me perguntou: "Ah, então tu jà foi selecionado?". Respondi que não, mas os possìveis orientadores disseram que eu tinha chance, logo, iria precisar comprovar proficiência n lìngua. Como dois gaiatos que são, não deixaram barato e fizeram chacota de mim :)

Em julho soube que fui selecionado na universidade em que estou. Duas semanas depois chega a carta da outra universidade com resposta positiva também. Recebi o resultado do teste de francês também. Nivel intermediario, equivalente ao B1. O nivel minimo pedido pela universidade...
Hora de dar entrada no visto.
Segundo falaram, fui o primeiro em Manaus a passar através do processo eletrônico do Campus France. Tive que refazer meu dossiê pela Internet porque este procedimento era obrigatòrio a partir de 2007.

3 - Eu deveria tramitar copias de documentos e os passaportes pelo consulado honoràrio de Manaus, que enviaria tudo pra Brasìlia. Entrei em contato por telefone com a gentil secretària, que perguntou como eu seria financiado. Eu disse que não tinha bolsa, e que ia deixar meu emprego e vender meu carro pra ir. Ela achou um absurdo (foi um tanto anti-ética a reaçao dela) e o que ela insinuou deu a entender que eu era um imigrante disfarçado de estudante. Não achei correta a postura dela, afinal eu ia fornecer todos os documentos. Falei depois que minha esposa ia junto. A gentil senhora manifestou-se de uma forma que eu me questionei se ela realmente trabalhava em um consulado. Pessoalmente ela foi menos negativa. Menos mal...

Fiz uma cartinha pra embaixada pedindo pra agilizar devido a motivos que expliquei. Entraram em contato comigo dizendo que o visto estava ok e mandaram SEDEX direto pra minha residência em Manaus.

4 - Jà podia revelar a proeza maluca. De julho até o momento do embarque pra França em setembro, ouvi vàrios tipos de comentàrio: de estìmulos à baldes de àgua fria, a maioria deu força, mas alguns poucos, de amigos à parentes, me olhavam com um olhar estranho quando eu dizia que viria sem bolsa pra cà e falavam horrores do custo de vida da Europa. Parece até que o otàrio aqui não tinha pesquisado os preços das coisas. Eu jà tava sabendo preço de aluguel, transporte, comida, etc.

Trabalho com TI, e se o mundo não pipocar com alguma crise, tem muito mercado pra nòs por muitos anos. O dinheiro vai, mas vem de novo.

5 - Jà na França, comentava com colegas daqui sobre seguir em tese num doutorado. Problemas polìticos de orientadores versus chefes não me favoreciam muito a continuar em tese. Precisava mostrar serviço. Botei na cabeça que tinha que publicar algo da pesquisa do mestrado antes da defesa. Meus colegas diziam que era dificil publicar em tão pouco tempo e que eu deveria me concentrar na dissertação. Claro que não dei ouvidos. Trabalhando em ritmo forte, desenvolvi o meu projeto, escrevi dois artigos e uma proposta de apresentação técnica em um evento. (Santa paciência da minha esposa!)
Todos achavam que os artigos eram muito técnicos e não eram interessantes de serem publicados, visto o nìvel das conferências, etc. Achavam que sò a apresentação ia passar.

Foi tudo aprovado. Milagrosamente, 100% de aproveitamento até agora.

6 - Pra continuar numa tese precisava de financiamento. Eu não ia pedir bolsa do Brasil, e restavam duas opções pra mim: Bolsa do governo francês ou contrato do laboratòrio. A bolsa daria um pouco mais de liberdade no tema de pesquisa, jà o contrato limitaria-me ao domìnio do projeto que me financiaria. Como sempre, colocaram terra no meu pedido de bolsa. Disseram que é difìcil, que sò as melhores notas conseguem e que isso, aquilo, etc. Era melhor ficar com o contrato mesmo, era o mesmo valor, etc etc. Fiz o dossiê do pedido.

Esta semana recebi uma bolsa do governo francês. Melhor que a do CNPq, por sinal :)
Não fui "top" da turma, mas chegou bolsa pra mim. Estou sem "amarras" na minha pesquisa.

Ok, història comovente. E daì?

Tento mostrar que opiniões externas não devem nos abalar ou desviar de nossos objetivos. Não se deve mudar de metas por que A ou B acha errado ou acha que não vai dar certo. Sempre é bom refletir sobre crìticas, mas somos nòs que sabemos dos nossos limites, dos nossos objetivos, sonhos, planos. Antes de qualquer outra pessoa, acredite em si pròprio. Meus pròximos 3 anos em tese podem até ser medìocres, mas esse ano de vitòrias nunca esquecerei. Insisti no que acreditava e tudo deu certo.

Considero-me sortudo, ilumidado, ou qualquer outro adjetivo que achem adequado. Mas se eu não tentasse, não tinha sorte do mundo que fosse fazer tudo isso acontecer. Tem que se mexer pra poder sair do lugar. O tempo todo recebi confiança e palavras de estìmulo de minha esposa, que mesmo não curtindo muito essa idéia de vir morar fora do paìs e ficar ainda mais longe da famìlia, embarcou comigo nessa jornada "louca". Nessas horas você vê como o amor é cego :)

Se alguém tem algum plano ousado e està naquela situação tipo "com uma asa delta e parado na frente do abismo", espero que este post sirva de empurrãozinho. Você consegue alçar vôo e chegar do outro lado. Pode acreditar. E se não tentar, vai se arrepender depois.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Silicon Valley francês recrutando mão de obra


Os brasileiros não escutam muito falar em Grenoble como se fala de Paris, Lyon, Nice, Lille, etc...
Entretanto este é um grande pólo tecnológico da França. Grenoble, o "Silicon Valley da França", esta carecendo de mão de obra e está indo longe buscar gente pra trabalhar: organizou um evento no Stade de France, com data de 7 de Junho pra recrutar pessoas para a indùstria de Software. São mais de 500 vagas que precisam ser preenchidas. Recrutamento em estádio! Eu nunca vi nada igual. Parece exército pedindo alistamento pra voluntários irem pra guerra.

Empresas como HP, Sun Microsystems, Orange, Bull e outras tem grande foco de atividade aqui.

Fico impressionado, cada vez mais, com a carência de profissionais na indùstria de Software em todo o mundo. Até no Brasil temos este tipo de problema. Um busca rapida no google mostra vários artigos mencionando este problema.

Com tanta oferta no mercado, é natural uma migração dos mais ousados. Muitos chamam de evasão de cérebros. Recife sofre um pouco deste mal. A cidade é referência como pólo tecnologico, mas os salarios de la sao bem "controlados". Pra que esta disposto a sair da zona de conforto dos amigos, familia, cultura, etc, tem salarios bem mais interessantes na Grande São Paulo, Campinas, Rio de Janeiro, Manaus, etc.

Outros países sofrem deste mal também. França e Alemanha, por exemplo, oficializaram que preferem que os alunos (estrangeiros ou não) de cursos de tecnologia permaneçam no país apos concluírem os seus cursos.

O Brasil ja é uma mega-potência agrícola e temos evoluido na area tecnologica. Mas países que investem tanto em educação estão tendo crescimento tecnologico reprimido, nos que temos ensino publico deficiente não daremos conta. O sonho de tornar o Brasil um nicho de off-shore como a India parece muito distante ainda.

Um pais onde o ensino publico de base é para pobre e o ensino publico superior (com vagas restritas) é para ricos ta complicado. A regra geral (eu sei que ha exceções) é estudar o ensino médio em escolas particulares e se preparar pra o vestibular pra entrar em Federal pois a qualidade de ensino é melhor (também sei que tem exceções) e o precinho uma beleza.

A elite brasileira é pequena, e o ensino publico superior é elitizado. Logo, pouca qualificação é gerada com dinheiro publico. Podemos contar com FIES* como verba publica, mas isso é financiamento e não bolsa. O estudante tem que pagar de volta quando se forma.
A gente esta se tornando celeiro mundial e essa grana toda que entra tem que ser revertida pra preparar o país pra o futuro. Li outro dia que vai faltar tanta mão de obra qualificada no Brasil que vai ser a coisa mais natural ter empresa bancando ensino médio, cursos técnicos e ensino superior pra poder ter gente capacitada, por que o governo não ta dando conta. Vi essa reportagem em que gente da engenharia civil reclama, entre outras coisas, da falta de mão de obra qualificada.

Tenho direito à ensino de base em escola publica, mas estudei em escola privada.
Tenho direito à universidades publicas, mas não consegui passar nelas. Passei em faculdade privada e me formei la (mais comentarios sobre isto noutro post).
Minha especialização foi paga por uma empresa privada, apesar de ter sido em universidade publica.
Agora estou fazendo mestrado na França com os estudos pagos pelo governo francês, com menos burocracia do que achei que tivesse. Tive que vir tão longe pra estudar de graça. Certamente mais fácil entrar num mestrado de uma boa universidade daqui do que em qualquer programa de mestrado de boas federais brasileiras.

Aqui vos escreve um cérebro que saiu de Recife pra Manaus pra trabalhar e de Manaus para a França pra estudar. Com certeza volto um dia, ainda não sei quando, mas volto :)

*(in)Felizmente não desfrutei do FIES. Minha mãe que era professora de escola publica (e conhecia de perto a qualidade) pagou metade inicial da minha faculdade e eu me ralei em estagio e emprego pra pagar os ultimos 3 anos de curso...