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domingo, 4 de dezembro de 2011

Merci et à bientôt

Este é 200° post publicado neste blog. Apesar de haver outros 9 (logo, total de 209) em edição ha meses, eles não serão publicados, pois o momento do relato passou e a memória dos eventos já não está tão fresca. Acho que perde o sentido no caso de um blog, publicar um relato de algo de meses ou anos atrás. 

Este post de numero 200 é o último. C'est fini. A minha jornada chegou ao fim, como descrita no post anterior. Ha duas semanas comecei a trabalhar aqui em Recife, onde continuo na setor de P&D, mas com um D maior que o P. Portanto, um ciclo se fechou e outro foi iniciado. A jornada de ir para França acabou (voltei, Recife!), e outra foi iniciada aqui mesmo onde nasci e cresci. Vida nova, endereço novo, emprego novo.

É fato que eu queria ficar mais um tempinho pelo lado de lá (na França), e que até surgiram oportunidades, mas minha esposa não aguentava mais ficar longe. Ela insistiu na volta e entendo perfeitamente o lado dela, que sacrificou a vida (uma parte) e objetivos profissionais para me acompanhar em meus sonhos. Aconselho casais a discutirem seriamente decisões deste tipo para evitar futuros conflitos. De volta a Recife conheci, direta e indiretamente, casos de profissionais da área de TI que foram para Canadá, EUA e Inglaterra e que tiveram problemas de adaptação/insatisfação das esposas, tendo que optar pelo retorno como a maneira de manter o casamento. O caso delas ainda era "menos pior" pois eram profissionais com bons salarios enquanto nos tinhamos orçamento de estudantes.

Voltar
A experiência de ir e vir é problemática. Pode viciar e nos tornar nômades. Falei disso no blog de um amigo quando eu estava prestes a voltar. Até agora não me arrependi e por enquanto não estou com vontade de ir a lugar algum. Especialmente depois de uma volta complicada como a nossa. Gostaria muito que desse tudo certo por aqui pra eu não ter que ir atrás da grama mais verde do vizinho. Ainda mais com uma esposa traumatizada com o nomadismo. Mas, por incrivel que pareça para os que estao acostumados com a choradeira de meus posts, eu estou adorando estar de volta e nao sinto falta da França. Da mesma forma que eu nao sentia falta do Brasil quando estava la. Sinto falta das pessoas. Ah, da França estou com saudades do sistema de transporte. Nao tenho saudades do otimo vinho a preço acessivel (pensei que fosse ter), pois aqui é um inferno de quente e eu so quero agua, refrigerante e suco. Estou conformado com todas as diferenças sociais, e tenho convicção que o Brasil precisa de muita ajuda. Tentarei fazer minha parte, ainda que nao represente praticamente nada em relaçao à essa grande maçã podre. Resumindo: acho que não me tornei o chato que volta e fica "por quê na Europa isso, por quê nos EUA aquilo". E olha que tô sofrendo andando de ônibus, e até ja sofremos tentativa de assalto com menos de um mês aqui. Espero que nao role nada pior que essas coisas.

Agradecimentos
Agradeço a todos os que leram meus relatos, piadas, loucuras, baboseiras. O feedback, seja por comentário, email, gtalk, pessoalmente, etc, me estimulou a escrever mais. O blog serviu de terapia e procrastinação ao longo destes últimos 4 anos. Posts vomitados, outros caprichados. Posts genéricos ou pessoais. Úteis (como esse e esse) e inúteis (como esse). Outros, marcantes na minha jornada, outros marcantes para o resto da vida. 

Através deste blog fiz algumas amizades que espero manter ao longo da vida, e quem sabe conhecer ao vivo e em cores pessoas as quais mantenho contato apenas pela Internet. Aos visitantes que chegarem depois de hoje (que deixará de ser hoje em algumas horas), busquem pelas tags para ver se encontram algo útil em relação a ir morar ou estudar na França. Esta foi minha visão dos fatos, e portanto pode ser diferente da de outras pessoas. Fiquem à vontade em enviar emails ou comentarem os posts. Não prometo transformar respostas de emails em posts, como fiz algumas vezes, mas prometo respondê-los.

Aos visitantes antigos, regulares ou não, tendo o hábito de comentar ou não, peço um favor: que comentem este último post dizendo a cidade onde estão. O Google Analytics já informa isso neste blog, mas vindo do leitor acho a estatística mais humana e interativa :)

Como me disseram em Grenoble, amigos não dizem au revoir, dizem à bientôt (até logo).

À bientôt les amis.

PS1: Eu ia escrever um "balanço" destes quatro anos, mas desisti. Fica pra outro post... Eita! Acabou o blog e todos os "fica pra outro post" ficaram pra nunca.  
PS2: Se bater a vontade de blogar de novo (sobre outros assuntos), postarei o link do novo blog na coluna aqui ao lado. 
PS3: Clique aqui :)
PS4: Este post foi escrito com teclado QWERTY e concluido com um AZERTY. Leiam a mensagem da coluna à direita.
PS5: Acabaram os PS deste post :)


//acabou! valeu!
end blog;

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Longa viagem Grenoble-Recife

Chegamos em Recife no dia 24/10. Desta vez é para ficar, eu acho. Talvez por essa ansiedade do retorno a viagem tenha sido longa, cansativa e estressante. Talvez para valorizar a chegada. Sei lá. O que tenho a relatar é que foi caótica, e se não fosse pela ajuda de nossos amigos poderia ter sido pior. Foram várias etapas "dramáticas", descritas a seguir.


Mutirão em Grenoble
Eram 8 malas, duas mochilas, um bebê e um gato. Muita bagagem. Eu precisaria me transformar num octopus para carregar tudo. A estratégia foi deixar a maior parte na casa de um amigo que mora ao lado da gare de Grenoble, onde pegaríamos um trem para Lyon, e lá outro direto para o aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Chegamos em cima da hora na gare. Nossos amigos já tinham levado parte das malas, e já sabiam o quai onde ia sair o trem. Uma amiga nossa tinha nos levado de carro e ainda tinha bastante bagagem. A galera veio ajudar buscando as coisas no carro e subimos correndo no trem, onde acomodamos a bagagem rapidinho. Não deu nem tempo de se despedir direito.

Troca de trens em Lyon

E agora? Como fazer para trocar de trem? 14 minutos de intervalo entre a chegada de nosso trem e a saída do TGV. Impossível eu dar conta. Minha esposa estava limitada a ajudar pois havia o carrinho de bebê com nossa filha e o gato para ela carregar. O namorado de uma amiga nossa mora em Lyon e foi "encarregado" do socorro. Pedi para ele levar dois amigos, mas conseguiu apenas uma alma caridosa para ajudá-lo. Eu nem sabia em que vagão estávamos para poder dizê-lo por telefone. Por sorte, o vagão do nosso trem parou ao lado de onde ele estava. 

Agonia para despejar as 8 malas. Levamos uma parte para o quai onde estava parado o TGV. Um de nós ficou vigiando as malas, e voltei com outro até onde estava minha esposa para virmos com o resto da bagagem. Conseguimos chegar com o trem ainda lá e já era hora do TGV sair. Jogamos tudo no vagão ao lado da rampa. Não era nosso vagão, e TGV tem lugar marcado. Não queríamos saber, apenas queríamos entrar no trem. Tudo certo. Todas as malas no trem. E um vagão bloqueado por nós. Ninguém passava. A porta automática do trem emperrando no carrinho da minha filha, que dormia como um anjo. As malas não deixavam ninguém passar. Fila de pessoas para subir a escada ao lado. O trem já tinha partido. Arruma mala aqui, ali. Passa um, passa outro. Joguei as malas todas no andar de cima.

Bagagem perdida no TGV
Stress para descer com as malas ao chegar em Paris. O controlador na estação avisado das bagagens não queria saber, ficou pressionando e dizendo que o trem não podia esperar.  Um passageiro ajudou a descer com algumas malas, cada uma em média com 30kg. Contagem rápida de malas: oito. Ok. Subida rápida no trem para desencargo de consciência, rabo de olho e descida rápida. O trem vai embora. Aliviado, empilho tudo em dois carrinhos. Conto novamente. Opa. Essa mala cinza eu nao contava com ela. Era a bagagem de mão da minha filha. Não era pra ter entrado na contagem. PQP!!! Cadê a mala preta? 

Achados e perdidos
Vou até o balcão de informação e me dizem que o trem ia para a estação Lille Flanders. Ligo lá e para Lille Europe, que gerencia os achados e perdidos. Apenas no dia seguinte poderíamos saber se a bagagem foi encontrada ou não. A SNCF, empresa dos trens, não se responsabiliza por bagagens perdidas e portanto é responsabilidade do passageiro ir buscá-la ou enviar alguém onde a bagagem estiver. E agora?

Gato com documentação irregular
Nossa passagem era pra ficar em fila de espera, pois foi com tarifa de dependente de funcionário da TAM (novamente, os amigos ajudando na viagem). A compra do bilhete do gato e da nossa filha seria feita na hora. O gato estava com o passaporte e vacinas em dia, mas também dependia de vaga no vôo. O máximo permitido é de dois animais domésticos no mesmo avião. Surgiu vaga no vôo. Beleza! Checa a documentação do gato. Cadê o Certificado Zoosanitario Internacional (CZI) ? PQP!!! Não pode voar. Ficamos em Paris para resolver. O dia seguinte era um domingo...

Sem teto no aeroporto
Antes de poder telefonar ou ir para a clínica veterinária precisaríamos passar a noite no aeroporto. Achamos muito complicado procurar hotel que aceite um gato como hóspede, além do incoveniente de 8 malas, sem contar com nossa filha e o carrinho de bebê. Além disso, a grana ia ser incoveniente também: taxi pra ir e voltar no hotel, taxi no outro dia pra ir ao veterinário, tudo caro em Paris, estávamos desempregados, etc. 

Comemos na McDonald's no piso térreo do Terminal 1, e nos instalamos nas confortáveis poltronas por ali. Tão confortáveis que vários sem teto aparecem por lá para dormir. Tem gente manjada, e o segurança chegou para tirar um de lá. Chamou uma mulher da administração, depois até a polícia. E nós do lado, com 8 malas, 2 mochilas, um gato e um bebê. O nobre segurança olha para nós, abatidos e com cara de sem teto (realmente estávamos sem teto) e pergunta "vocês vão viajar?".  Com muita indignação e num tom de "é óbvio, seu imbecil!", abri os braços apontando para as malas e disse "é claro!".

Desistimos de ficar por lá, pois tava crowdeado com sem teto, uns três. Tinha outras três ou quatro pessoas que pareciam ser passageiros mesmo. Mas na verdade não dá pra saber ao certo, pois os sem teto andam com malas nos carrinhos de bagagem para fingir que são passageiros.

Subimos para a área de embarque, onde estava tudo apagado e apenas o pessoal de limpeza. Dezenas de balanças à nossa disposição para refazermos as malas. Longa noite reequilibrando o peso. Nessa arrumação, nasceu mais uma mala. Agora eram nove. Dormimos muito mal, nervosos e preocupados achando que iam roubar a bagagem ou sequestrar nossa filha. 

Taxi uma ova
O domingo raiou, passageiros ocupando o aeroporto. Um grupo barulhento de muçulmanos subsaarianos nos acorda. Descer, tomar café da manhã no McDô,  e ainda tinha o documento do gato. O cara da TAM disse pra pegar taxi pra ir ao veterinário. Taxi uma ova. Eu vou é de trem. A ida e volta no RER ficou por 9,40 ao invés de ficar pra lá dos 50 se fosse de taxi. 

Mala achada
Voltei ao aeroporto com o documento do gato e fomos para a fila de espera no balcao de embarque. Antes, uma ligadinha para a estaçao de trem de Lille. O cara disse que acharam uma mala com a descriçao que dei e perguntou se era uma mala cheia de utensilios de cozinha. Ela mesmo. Cheio de coisas da Doce Sucré. Perfeito. O cidadao la falou que o protocolo foi gerado e a mala etiquetada. Agora eu teria dois meses para achar alguém para ir buscar a mala. Depois disso eles dariam fim a ela caso ninguém aparecesse.

Gato sem reserva no vôo de conexão
Chegamos em Guarulhos, tiramos as malas, fizemos alfândega e seguimos para o balcão de conexão. Descobriram que o gato nao tinha reserva até Recife. Não sabiam nem se o bilhete dele tinha sido pago ou não pois não constava no sistema dele. Decidimos que minha esposa seguiria com nossa filha no vôo pra Recife e eu ficaria para resolver. 

Tudo certo, a loja da TAM achou os dados informando que o transporte do gato estava pago. Lá vou eu no vôo seguinte, ainda tem stress no raio-X onde eu já tava de saco cheio de tudo e quase choro de desespero e raiva, pedindo pra me deixar ir embora. Fiquem com o gato, mandem por Sedex. Eu só queria chegar. Fui o último a entrar no avião, e como sempre todos perguntando: "é um cachorro?". Não, era um gato. Maldito gato. 

Voltei, Recife
Parafraseando a música de Alceu Valença: "Voltei, Recife. Foi minha esposa que me trouxe pelo braço".
Com a glória de Maomé, das tábuas de Moisés, do Bhagavad Gita, do Torá e de tudo o que é sagrado, chegamos ao Aeroporto Internacional dos Guararapes, rebatizado de Gilberto Freyre. A bagagem despachada seguiu com minha esposa. Eu só estava com minha mochila, um gato e um casaco pesado e inadequado para os 28°C que me esperavam naquele meio de manhã ensolarado de Recife. Jogo tudo em cima de um carrinho de bagagem, e dirigindo-me à saída do portão de desembarque vi uma mulher com o penteado e porte físico parecidos com o de minha mãe, que há onze anos estava no portão de desembarque do antigo aeroporto me esperando chegar de volta dos Estados Unidos, na mesma situação de mudança, mas sem esposa, sem filho e muito menos gato. Meus olhos se enchem de lágrimas. Um nó na garganta, pois rapidamente me dou conta que minha mãe já não está entre nós há quase oito anos. Engulo o choro e sigo caminhando. Saio, e não tem ninguém me esperando. Por incrível que pareça, só não me senti mais só por que estava com o gato.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Primeiro Toco

Enquanto tem um bocado de neguinho foragido que faz doutorado com dinheiro brasileiro no exterior e não quer voltar dizendo que não tem oportunidades no Brasil, eu, que não usei um centavo do governo brasileiro, estou voltando e o CNPq me nega bolsa de pós-doc. Estou nacionalizando cerca de 100 mil euros que a França desembolsou comigo e minha família, entre bolsas, ajudas sociais, viagens à conferências, recursos usados no laboratório, etc. Supostamente eu deveria estar apto a formar pessoas e a fazer pesquisa.

Claro que o governo brasileiro não tem obrigação de me dar nada. Mandei um projeto de pós-doc que fiz com um professor da Federal. e avaliado por um comitê de especialistas. Recebi a notícia sem problemas. Mas depois de refletir sobre o que está descrito no parágrafo acima, fiquei chateado. Não vou estender a ladainha. Paro por aqui, pois ainda devo terminar meus slides pra  minha defesa na próxima quinta-feira.  Este é o primeiro toco que levo do Brasil, sem ainda nem ter chegado de volta, de vários que estão por vir. Apesar disso ainda me considero bastante sortudo em diversos aspectos. Ou será que eu fiquei mais sortudo depois que saí? Descubrirei isso em algumas semanas.

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Intercâmbio no Brasil

Quem quer ir fazer um intercâmbio no Brasil ?

Esta é a pergunta que sera feita dia 15 aqui na Ensimag, escola de engenheiros em Informatica de Grenoble que tem programa de intercâmbio com diversas instituiçoes no mundo, inclusive o Brasil. O convênio é com a UFRGS, uma as melhores na area de computaçao do paìs  O objetivo do journée Brésil é mostrar o valor desta experiência para os potenciais candidato, rapidas informaçoes sobre o Brasil, o idioma, as possibilidades, financiamentos, etc. Assisti ha uns dois anos, a titulo de curiosidade, e o professor que fala do Brasil é um francês  professor da UFRGS. Se eu nao estiver enganado, ja ouvi falar de dois franceses de la no departamento de Computaçao. Nao sei se ha mais. Aqui em Grenoble nunca ouvi falar de professor brasileiro, seja na UJF ou na Ensimag. Mas doutorandos eu posso chutar com confiança e dizer "tem mais de dez". Fora as dezenas que ja terminaram.

Devido a esta parceria, tem tanto estudantes de ca de Grenoble indo para la, como brasileiros vindo para ca. Muitos estudantes brasileiros vindos da UFRGS. Nos quatro anos em que fiquei em minha equipe, apareceram três estudantes da UFRGS e um deles continuou no doutorado. Da minha época, eu fui o unico brasileiro “sem convênio”. O interessante é que eu fui monitor da Ensimag por três anos, e dos mais de 200 estudantes que tive, nenhum era brasileiro. Como a disciplina era Banco de Dados, eu suspeito que eles ja devem chegar com o crédito do curso feito no Brasil. No ano passado ensinei Introduçao a Sistemas Distribuidos para o pessoal do ultimo ano, 53 alunos ao todo. Nenhum brasileiro.

O Brasil ainda é meio fechado para estudantes vindos de fora. Nao sou eu quem afirma, pois  isso ja foi tema da lista de discussao da Sociedade Brasileira de Computaçao. Aqui nao ha aulas em inglês, e duvido que haja em espanhol. Uma das melhores formas de criar vinculos com outros paìses e trazendo gente de la para estudar em seu paìs, ou mandando gente do seu para estudar là. Uma das maneiras de se fazer isso é criar programas de intercâmbio, como no caso acima. A tendência é a colaboraçao ir aumentando, e criar uma situaçao onde todos os lados ganham. Nao sei se com esse crescimento rapido (eu diria que esta inflando, ou inchando) talvez o Brasil mude mais a cabeça. O paìs tem ganhado bastante projeçao e confiança internacional, e muitos paìses querem estabelecer parcerias com ele. Talvez isso mude. Por enquanto, Dilma esta pensando em enviar milhares de brasileiros pra fora. Espero que nao vao com intuito apenas de passear, e que voltem também, com algo na cabeça.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Tramway cabadapeste

Sou fa dos tramways. Até ja falei deles rapidamente aqui. Acompanhando as noticias sobre o progresso dos trabalhos na infraestrutura das cidades-sede da Copa do Mundo de 2014, vi que algumas cidades cogitaram e algumas até escolheram o uso de Veiculos Leves de Transporte (VLT). Esse é o nome moderno do bondinho no Brasil. O famoso tramway que continua tramway na Europa, constrastando com os carros e ajudando no transporte em varias cidades em que estivemos como Karlsruhe, Bruxelas, Atenas, Strasbourg, Lyon e Praga, e com um charme especial em Portugal com bondinhos no estilo antigo em Lisboa e no Porto.

Era uma vez um VLT em Brasilia
Brasilia escolheu construir o VLT, a ser fornecido por um consorcio cuja tecnologia ficaria por conta da Alstom, megaempresa francesa que fornece equipamento ferroviario (trens, metrôs, tramways) entre outras coisas. Aqui perto de casa tem um escritorio da Alstom em um galpao, que se nao me engano é ligado ao braço deles que atua no setor hidroelétrico. Se estiverem precisando de usina nuclear em seu estado eles também constroem.

Mas falando dos VLTs, a Alstom implantaria em Brasilia os modernos Citadis, o mesmo tipo usado em Grenoble, onde atualmente moramos. Video em português explicando neste link do Youtube. Chegaram até a exibir o danado em Brasilia, como mostra este outro video. Mas, como Brasil é Brasil, a obra foi parada pois descobriu-se que foi SUPER FATURADA EM QUATRO VEZES. Era uma vez um sonho de primeiro mundo.

A Alstom também envolve-se em escândalos e esta ficando famosa em dar propina pelo mundo afora. Corrupçao nao é coisa so de brasileiro. A diferença é que no Brasil é exagerado e vai do policial da esquina ao pessoal do alto escalao do governo.

VLT "da mulestia"
Correndo por fora da Copa, surge o Metrô do Cariri (foto do post), usando VLTs em pleno sertao cearense. Minha admiraçao para os visionarios cearenses, que surpreenderam com a Troller no ramo automotivo, e agora com os VLTs fabricados pela Bom sinal. Tramways nacionais! Tramways brasileiros! Que sejam inferiores aos da Alstom, mas eles sao adaptados à realidade econômica do Brasil. Eu explico. A Bom Sinal argumenta que os atuais tramways usados na Europa, por exemplo, nao sao viaveis na maioria das cidades do Brasil devido ao alto investimento nas linhas elétricas que alimentariam os tramways. O custo por km seria muito alto. A quantidade de passageiros a ser transportada deveria ser muito alta para justificar os investimentos.

Para cidades de médio porte, como as capitais nordestinas, o ideal seria um VLT a diesel, que é o que eles produzem. Ele transporta mais passageiros usando menos combustiveis que ônibus, e o impacto no transito de veiculos automotores é minimo. Um argumento altamente gambiarra é o de aproveitar a malha ferroviaria existente, ajudanto os governos a nao investirem em novas linhas férreas. Gambiarra ou nao, a Bom Sinal esta em expansao. Maceio, Recife e Fortaleza sao outras capitais nordestinas que estao ou estarao em breve utilizando VLTs Bom Sinal.

Salvaçao do Caos do Trânsito Urbano
O transporte sobre trilhos de fato reduz o trânsito caotico das grandes metropoles.Talvez em Recife estes investimentos no VLT nao consigam trazer uma melhor significativa para o trânsito, pois os VLTs da Bom Sinal nao serao os usados nas linhas principais do metrô, nem para Sao Lourenço. Eles substituirao os velhos trens a diesel feioes que iam até o Cabo. O atual sistema de metrô ja funciona desde os anos 80, com algumas expansoes, mas sempre voltado para o suburbio. Enquanto em grandes cidades o conceito de metrô é urbano, em que você sai da estaçao e ja esta no centrao, o metrô de Recife é suburbano. O objetivo inicial dele foi de ligar o suburbio ao centro. Existe UMA estaçao no centro, e eu diria ainda que é "periferia do centro". Para os que conhecem Recife, imaginem um metrô passando pela Av. Conde da Boa Vista ou pela Agamenon Magalhaes. Isso sim seria o conceito de metropolitano que se usa nas grandes cidades. Agora vao fazer um "puxadinho" para chegar até a cidade do estadio da Copa, Sao Lourenço da Mata, quase saindo da Regiao Metropolitana do Recife em area limìtrofe com a Zona da Mata.

Os usuarios do metrô em Recife sao pessoas que utilizariam transportes publicos de uma maneira ou de outra. Enquanto nao houver metrô nos bairros de classe média, o metrô nao representarà reduçao de trânsito. Por exemplo, um metro cortando o coraçao de Boa Viagem e indo até o centro salvaria a cidade do caos crescente. Vejam o exemplo na França, salva por tramways:



No Ceara nao tem disso nao
Apesar de tramways funcionarem em varios paises, nao creio que o modelo de mistura-los com o trânsito de carros daria certo. Acho que deve ser metrô elevado (ex: Recife) ou subterraneo (ex: Sao Paulo).
No Brasil nao motorista educado, nao senhor(a). Se eu ja vi colisao com tramway na Alemanha, imagina com os motoristas mal-educados brasileiros. Olha o desrespeito dos motoristas combinado com a provavel falta de sinalizaçao no Metrô do Cariri:


Além de outros transtornos como este aqui, causado pela falta de passagens sobre ou sob os trilhos:


Acho que nao adianta querer imitar o primeiro mundo. Nosso povo é diferente. Precisamos adaptar as boas idéias à realidade brasileira, até que as geraçoes futuras se eduquem, em diversos aspectos inclusive em educaçao no trânsito. O tramway, aliàs, o VLT, ja temos no Brasil e Made in Brazil, falta apenas adaptar melhor a um modelo compativel com a realidade nacional.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Creches na França

Antigamente, no mundo dos nossos avos, bisavos, as esposas abdicavam de suas vidas para se dedicarem ao lar, cuidando da arrumaçao, da cozinha e da prole. E que proles numerosas antigamente! Agora a historia muda, e as mulheres ha decadas ja saem de casa para continuar os estudos e trabalhar. Mas e quem cuida das crianças? Esse é um dos grandes problemas de casais do mundo moderno. Morando na mesma cidade da familia, tem sempre a vovo' pra quebrar o galho, ou uma tia, ou até mesmo o vovô. Mas e se nao tem ninguém da familia pra ajudar? O que fazer?

No Brasil tem babà a preço acessivel para as classes média e alta, afinal a diferença salarial é gritante. Pagar um salario minimo nao é nada para muitos casais de classe média que possuem renda familiar de 5, 10, 15 ou sei la quantos salarios minimos. Ha quem prefira deixar filhos em hotelzinho, berçario, escolinha, ou algum outro local conduzido por profissionais com formaçao na area. Além do fato da maior parte das babas nao terem formaçao especifica para educar crianças, existe o receio de maus tratos. Mas isso também nao deixa de acontecer em espaços coletivos no Brasil, mesmo que com menor frequência (o caso da creche em Goiânia).

Serviços sao carissimos no primeiro mundo e a renda é bem distribuida. Ganhar 5 salarios minimos na França nao é comum. Para você ter idéia, um professor universitario no Brasil inicia ganhando mais de 13 salarios minimos. Na França o mesmo cargo inicia com pouco mais de um 1,5 (um salario e meio). Professores de longa data conseguem ganhar 3 salarios minimos ou mais. Perceberam a diferença? Tudo bem que a França paga mal, o povo francês sabe e vive fazendo greve por isso e outras razoes mais. Percebem a dificuldade de pagar uma babà? Quais seriam as alternativas entao?


Modes de Garde
Logo apos o nascimento de nossa filha, eu fui até o Pôle Petite Enfance, da prefeitura de Grenoble. A fila de espera por vagas em creche é gigantesca, e so é possivel marcar um horario para se inscrever depois que a criança nasce. Nada de tentar ganhar tempo fazendo a inscriçao enquanto o bebê esta na barriga.

Nossa filha nasceu em Janeiro de 2010. Telefonamos para la e conseguimos horario para sermos atendidos em fevereiro ou março, nao lembro bem. Eu fui la sozinho. A esposa preferiu ficar em casa cuidando do bebê, mas la tem muita gente que vai ser atendido e leva o bebê ... porque nao tem com quem deixar.

A atendente explicou que existem diferentes modes de garde ("modos de guarda"). Resumindo eu entendi o seguinte :
  • Assistente maternal: Baba, ou nounou (leia-se "nunu"), que tem curso e é homologada pela prefeitura. Você deixa o bebê na casa dela. Existe um limite maximo de crianças de acordo com normas legais (ex: 2 bebês que andam e 1 bebê de colo; 1 bebê que anda e 1 de colo caso more em apartamento sem elevador). Se você algum na França dia avistar na rua alguma mulher com muitas crianças na faixa étaria de até 3 anos, provavelmente ela é uma nounou que esta levando os bebês para passear.
  • Assistente em domicilio: Baba na sua casa, com contrato assinado, exclusividade, férias, etc. Ou seja, formato similar ao que se usa no Brasil. A diferença é que sera uma pessoa que estudou, teve treinamento para esta funçao e provavelmente fala corretamente e você nao tera problemas em corrigir erros de linguagem que seu filho adquiriu com a baba (ex: oitcho, muntcho, cumê, pobrema, etc). Nao é preconceito nem piada. Estou falando sério. No Brasil a regra geral é que baba é subemprego de gente desqualificada (no sentido intelectual). Meus pais e minha irma me falavam que eu era sem noçao e aos 5 anos de idade (eu sou anormal mesmo, comecei a ler meio cedo) corrigia erros de português das babas, e teve uma que até se interessou a aprender a ler por causa de mim.
  • Halte Garderie: Algo como uma "creche quebra galho". Você se inscreve e liga pra ver se tem vagas. Nao existe regularidade de deixar o filho todo dia. O horario é montado sob demanda.
  • Creches da prefeitura de Grenoble: Estabelecimentos coletivos onde as crianças ficam um ou dois turnos, com periodicidade definida através de um contrato.
  • Creches da CAF: A CAF é aquele orgao que falei que da ajuda moradia. Eles possuem centros sociais (algo muito legal, que gostaria de falar em outro post) e creches. O funcionamento é similar ao das creches da prefeitura, mas como sao gerenciadas por outro orgao eu teria que ir diretamente la.
Algumas halte garderies também acumulam funçao de creche, ou seja, algumas crianças tem horarios fixados por um contrato e outras vagas sao flexiveis no formato "quebra galho". A creche da foto acima (eu sou "o cara alto" na foto) é onde nossa filha vai e funciona assim. Existem outros tipos de creches: creche de associaçao de empresa, de bairro, de pais, etc, etc. Mas esses sao os modelos, digamos, homologados para poderems ser subsidiados pela CAF.

Conseguir vagas é muito dificil. A creche de nossa filha foi a 4a. opçao que tinhamos feito. Varias pessoas que conhecemos disseram que nosso tempo de espera foi muito curto (menos de 6 meses), e normalmente pode durar até mais de um ano. Como tudo é feito baseado nas declaraçoes de imposto dos dois anos anteriores, nos fomos beneficiados por ter um ano sem renda. Eles dao prioridade a que tem renda baixa, para a pessoa ter mais oportunidade de trabalhar. Interessante o modelo que tenta ser justo.
A "formula" que minha esposa escolheu foi creche meio tempo (mi temps): 5 turnos, ao invés de 10 (temps plein). Eu queria que ela ficasse horario integral. Meio tempo quebrou geral e era o caos completo em relaçao ao tempo e correria. Conversem sobre isso antes de terem filhos: quem vai cuidar do bebê e como sera.

Ja um colega do laboratorio, que tem um filho nascido dois dias antes da minha filha, se inscreveu para deixar o filho numa nounou. A escolha é feita pelo Pôle Petit Enfance de acordo com vagas e o bairro da pessoa. Se os pais nao aceitarem, um abraço e volte ano que vem. O meu colega disse que chegou no primeiro dia, atendeu uma mulher de preto. Era a nounou. Ele entrou na casa com a esposa e o bebê deles. Deu bom dia ao marido da nounou que tinha cabelo grande e unhas pintadas de preto. Meu colega e a esposa sao equatorianos, catolicos praticantes. Preciso explicar mais? Um abraço e volte ano que vem. Hoje ele se arrepende um pouco do preconceito que teve, e precisou procurar sozinho uma nounou. Demorou algumas semanas pendurado no telefone até encontrar uma.

Alocattions Familiales
Além da moradia, eles também ajudam com outros tipos de alocaçoes familiares, o equivalente no Brasil aos programas que levam "bolsa" na frente (bolsa escola, bolsa familia, bolsa cachaça, etc). FHC e Lula nao contaram que isso existe ha anos em varios paises da Europa como forma de distribuir renda e amenizar as dificuldades financeiras das classes mais baixas.

No contexto do post (cuidar dos filhos), a CAF complementa o pagamento da creche ou qualquer que seja o "modo de guarda" (mode de garde) que os pais escolheram para cuidar da criança. Nao tenho certeza se o modo "quebra galho" das halte garderies sao subsidiados pela CAF, mas no caso das nounous e dos outros modos acima ha o complemento. O meu colega que nao curte unha pintada de preto tem reembolso da CAF relativo a uma parte do que ele paga à nounou. No nosso caso o desconto ja é direto, e so pagamos a diferença. O preço da creche de nossa filha seria uns 250 euros por mês, mas pagamos apenas 60. Se continuassemos aqui, no ano que vem aumentaria pois nossa declaraçao dos ultimos dois anos renda seria maior, o que diminui os subsidios.

De um jeito ou de outro, as "caridades" estao acabando. Se ficarmos por aqui o historico salarial vem aumentando e as ajudas sociais tendem a desaparecer. Se voltarmos nao tem nada disso de ajuda social, mas na verdade acho que teremos mais opçoes: e$colinha$, ajuda da vovo materna ou semi-escravatura de uma baba ao modico preço de um salario minimo (do Brasil, claro).

quarta-feira, 23 de março de 2011

De visita e assaltado

Estou em Porto de Galinhas, Pernambuco (meu estado natal!), como visitante para participar de um congresso que vai de 21 a 25 de março. Vou levar de lembrança na minha memoria um assalto à mao armada, que descrevo aqui.

A fome
Na noite da terça houve uma sessao de exibiçao de posters, seguida de uma apresentaçao de ritmos pernambucanos e logo apos algumas bebidas e salgadinhos. Nao deu pra encher a barriga. Eu e mais um pequeno bando de esfomeados decidiu ir ao centro de Porto de Galinhas para comer algo. Fomos pela praia, caminhando.

A abordagem
Por volta das 21hrs, depois de algo entre 5 e 10 minutos de caminhada, dois caras encapuzados com as camisas amarradas na cabeça passam correndo ao nosso lado mostrando uma arma e gritando para entregarmos o nosso dinheiro. Dois dos nossos colegas, um brasileiro e um francês, que estavam um pouco mais à frente nao perceberam e continuaram caminhando. O revolver era aparentemente velho, mas eu nao quis arriscar nem perguntar a ele se o revolver funcionava. Obedeci às ordens de ir ao chao, e como um babaca com as maos para cima fiquei de joelhos na areia.

O passo a passo
Anunciei cada passo como orienta a polìcia."Estou tirando a carteira aqui do bolso de tras", "estou tirando o relogio". O suiço que estava conosco perdeu 150 reais, e um iPhone. Os dois colombianos que "fechavam" o grupo tiveram cada um cerca de 100 reais roubados, e um deles entregou o relogio. Eles foram espertos (ou loucos) o suficiente de guardar os seus celulares. O ladrao ainda chegou a apalpar o bolso de um deles, mas era o bolso vazio. Ainda bem.
Minha carteira tinha cartao de crédito, cartao de senhas do Internet Banking, carteira de motorista do Brasil, carteira de estudante da França e miseros 3 reais, e um bocado de papel inutil que nao sei porque guardo na carteira.

A delegacia
Voltamos para o hotel do congresso, e combinamos de ir na delegacia. Corri para a pousada onde eu estava, liguei para cancelar o cartao de crédito e o cartao de senhas do Internet banking. Em seguida fomos à delegacia fazer o boletim de ocorrência (BO).

Chegando la, um policial nos atendeu muito bem, mas nao me convenceu de que era policial. Ele nos culpou pelo assalto, dizendo que deveriamos evitar aquele local trecho.
Perguntei se sao feitas rondas ostensivas da Policia Militar na praia para inibir assaltos. Ele se isentou da culpa e disse que nao tem nada a ver com isso pois é da Policia Civil. Também falou que nao podem ir atras dos ladroes pois é tarefa da PM. Nos falou para ligar para a PM, mas nao de la da delegacia. Que fossemos ligar de outro local.

Acusou imigrantes baianos e mineiros de terem aumentado a criminalidade. Disse que eles viem trabalhar nas empresas que giram em torno do porto de SUAPE, que esta em plena expansao. O pessoal complementa a renda roubando à noite, e no outro dia vao trabalhar.

Eu sabia que ir à delegacia nao nos faria reaver o dinheiro ou os pertences, mas eu estava preocupado em acontecer algum tipo de fraude com meu CPF que esta na CNH roubada. Imagino que o BO pode me livrar de problemas caso isso venha a acontecer.

Otima impressao as vitimas estrangeiras levarao do Brasil.

E o detalhe desta noite: nao jantei e fui dormir com fome.

Um sinal?
Podemos fantasiar fatos da vida e interpreta-los como "sinais". Seria este um sinal avisando para desistir de voltar para o Brasil e ficar na França? Ou seria um alerta dizendo "fica esperto que é isso que ta te esperando"?

Acho que foi apenas uma casualidade. Ja pensou? Ficar saindo de bobeira assim. Nao pode. Quando eu vier morar aqui de vez com a familia, vou tomar precauçoes:
-Arrumar emprego estilho home office, assim evito sair de casa e ser assaltado no transito.
-Contratar professora particular para nao ter que levar minha filha na escola, e correr o risco de ser assaltado.
-Pagar TV por assinatura que tem pay per view, entao nao preciso ir ao cinema nem na locadora. Assim evito de ser assaltado.
-Gradear o apartamento, pra evitar de ladroes entrarem pelas janelas
-Usar a Internet pra efetuar pagamentos de boletos, comprar coisas e pedir para entregarem em casa, até mesmo compras de supermercado. Nao quero correr o risco de sair e ser assaltado.
-Utilizar o Skype para me reunir com a familia ou para "tomar uma " virtualmente com os amigos. Afinal, em casa o risco é bem menor.

Posso até tentar sair de casa algumas vezes, mas antes disso preciso me preparar: vou juntar dinheiro e comprar um carro blindado, pois so assim conseguirei me sentir seguro no trânsito. E se eu sair à noite, vou avançar sinais vermelhos com cuidado, como a policia aconselha.

Engraçado como a policia ajuda ensinando a cometer infraçoes com cautela. Também ensinam a como ser vitima de assalto. Aprendi direitinho e nao aconteceu nada comigo quando fui assaltado. A policia ja nao precisa combater o crime, eles apenas nos orientam a lidar com ele. E se acontece algo, ele tentam nos conformar de que é assim mesmo e que somos todos impotentes em relaçao à isso. Hoje em dia eles tem tempo de fazer outras coisas mais uteis para seus interesses pessoais. Mas acho que eles cansaram de "policiar", afinal, policial também é cidadao e pode se indignar e cruzar os braços. Indignaçao com a falta de perspectiva dos menos favorecidos, que como alternativa para ganhar a vida vao roubar. Deixa os pobres coitados ganhar a vida, né? Afinal, nao conseguiram fazer nada por eles. Mas pensando bem, se for verdade o negocio dos trabalhadores que trabalham de dia e roubam de noite, o negocio nao tem jeito. O problema é safadeza mesmo.

Mas, o negocio é entrar na onda e se conformar. Estou ansioso para voltar e nao vejo a hora de morar na minha prisao domiciliar. Espero que ninguém me assalte por là.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Escolhas

Eu digo que é sempre bom ter-se uma opçao apenas. Porque quando temos mais de uma começa a ficar dificil tomar decisoes. Especialmente quando se esta inseguro. Ja falei aqui que voltaremos para o Brasil apos minha defesa do doutorado. No post anterior falei que o pedido de cidadania francesa furou. Hoje foi a vez de eu declinar um convite de pos-doc. Apenas a carater informativo: pos-doutorado nao é titulo. O grau acadêmico maximo é o doutorado. Logo, esta meio furada a afirmaçao "fulano(a) é pos-doutor(a)". Pos-doc refere-se ao periodo (geralmente entre 1 e 3 anos) passado por um doutor em uma instituiçao de pesquisa (universidade, instituto, departamento de P&D de empresa, etc). Tem doutor que fica pulando de galho em galho fazendo pos-doc por muitos e muitos anos, mas o normal é ficar um ano em um pos-doc e em seguida arrumar algo mais duradouro. Professores doutores também fazem pos-doc (utilizava-se o termo periodo sabatico), servindo pra dar uma atualizada ou aprofundada em alguma area do conhecimento.

Non, merci
Normalmente um doutorando (ou mesmo um recém doutor) rala pra encontrar pos-doc legal. Esse que declinei caiu no colo. Meu orientador falou pra um arquiteto de software do departamento de P&D de uma grande empresa de telecomunicaçoes européia (aquela com nome de fruta) que eu estava acabando a tese e buscava um pos-doc. Ele conhece a tematica com que trabalho, que tem a ver com os projetos do departamento dele. Recebi o convite para continuar com eles na mesma linha de pesquisa de minha tese. Um framework (para os leigos: digamos que seja um software que serve de infraestrutura para fazer outros softwares) deles entrarà em fase de industrializaçao, e eu iria aplicar neste projeto tecnicas que usei na minha pesquisa do doutorado. O projeto pronto potencialmente poderia entrar nos produtos dele a médio prazo, que em alguns anos significaria milhoes de usuarios. Claro que produtos de pesquisa tem sempre grande potencial de serem engavetados e nunca chegar perto do mercado. A possibilidade de milhoes de usuarios é altamente motivadora. Fora o desafio, a grana ia aumentar pelo menos uns 50% em relaçao ao que ganho hoje, que ja nao é ruim pro padrao francês mas também nao é boa, ainda mais para uma familia de 3. Se tivesse abertura pra negociaçao eu até choraria pra ganhar mais. Soube que eles tem varios beneficios, inclusive passagens aéreas baratas.

Mas ja é passado. Tive que declinar, pois entra o lado familiar visto que a nossa decisao é retornar para Pindorama. Minha esposa esta vivendo quase 4 anos aqui na França sem nunca querer ter saido do Brasil. O estranho é que ela gosta daqui, mas nao gosta do fato de estar aqui. Acho que foram os anos mais dificeis da minha vida (e da dela imagino que também). A infelicidade dela era diariamente aparente, com breves momentos de alegria. Depois que ficou decidida a volta, o bom humor dela ficou mais frequente, e o brilho nos olhos dela parece até que aumentou. Uma pena que eu e nossa filha nao sejamos suficientes pra felicidade dela. Pra mim o trio ta otimo. Mas, cada um é cada um.

Valorizaçao dos trabalhos de tese
Ainda nao defendi a tese, mas fico motivado pelo que faço ter uso no mercado. Em uma apresentaçao nao tanto acadêmica que fiz em 2009, uma pessoa se interessou pelas técnicas que proponho. Fiquei desconfiado se o cara realmente tava interessado. Achei que ele estava louco em pensar que o que eu fazia era interessante. Hoje ele aplica essas técnicas no produto em desenvolvimento na empresa start-up que ele criou, e atualmente eu e meu orientador damos consultoria pra esta empresa através de um contrato formal com nosso laboratorio.

Voltando para o Brasil provavelmente terei que fazer outra coisa. Minha pesquisa atual nao tem espaço no mercado brasileiro, que normalmente usa tecnologia pronta ao invés de desenvolver. A interaçao universidade-mercado na França nao é tao forte como nos EUA, mas é bem mais avançada que no Brasil. Por incrivel que pareça, a impressao que tenho da academia brasileira é que predominam abordagens cientificas e formais, enquanto na França (e na Europa em geral) vejo tanto isso quanto pesquisas aplicadas diretamente no mercado.

Sem precisar fazer lobby nem correr atras de nada, a tal "valorizacao dos trabalhos de tese" (um termo que usam aqui na França) aconteceu meio que naturalmente. Muita gente trabalha em pesquisa de doutorado durante 3, 4 anos, defende, engaveta a tese e nunca mais se fala naquilo. Antes mesmo de terminar a minha ja pude fazer reais contribuiçoes. Tenho (ou tinha) um grande complexo de inferioridade por ser aluno de universidade privada tentando se meter em meio acadêmico. O fato de vir a um pais de primeiro mundo, poder dizer "olha, vocês poderiam fazer isso assim" e te darem ouvidos me deixou bastante satisfeito. Essas pequenas vitorias me ajudaram a superar esse trauma e melhorar minha autoestima.

What if
Mas, em nome da familia, agora é hora de eu abrir mao de algo. O processo de auto sugestao hipnotica alienante power plus plus de me convencer para a volta esta tranquilo. Eu acho (percebam como estou decidido). Estou convencido de que quero voltar agora. Claro que sim! o boom economico do Brasil, os concursos, investimentos no Nordeste, o legado de Lula. Eh agora ou nunca! * pausa* Cada vez mais acho que este post é parte do trabalho de autoconvencimento, autoconformaçao, autoetc para "eu mesmo me auto justificar para mim". Bom, se eu nao voltar fico sem familia pois minhas meninas voltariam sem mim. Se é pra voltar, tenho que querer, ou ao menos me convencer que agora é a boa hora. *fim pausa* Mas, o plano atual de retornar e prestar concurso de professor adjunto em federal vai ter que esperar devido a noticia que vi hoje dos cortes que o governo fez no orçamento de 2011 (preciso tirar os concursos da lista acima). Coincidência bizarra de acontecer isso no dia que eu recuso um pos-doc legal. Sem previsao para concursos, é hora de traçar o plano D e talvez buscar emprego de novo no mercado brazuca, rasgando o diploma de doutorado que ainda nem tenho pois doutorado nao serve de nada nesse mercado de onde vim.

Entretanto, ficara pra sempre a duvida do "e se eu ficasse um pouquinho mais de tempo na França, até onde iria tudo isso?" (isso me lembra o what if das historinhas da Marvel). Afinal, nao tenho vinculo com Capes nem CNPq que me obrigue a voltar. Um aninho a mais, daria tempo pra tirar cidadania, juntar mais uns eurinhos pra voltar e quem sabe dar mais umas turistadas pelas redondezas. O problema também é que ficando, no futuro surgirà o "e se tivessemos voltado logo apos o fim do doutorado?".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cidadania francesa

Nao, nao tirei a minha. Quase. Conto a historia a seguir.
Em setembro do ano passado, ao voltar conversei com um amigo marroquino la do laboratorio que disse que ia dar entrada na cidadania francesa. Ele falou que a cidadania de um amigo dele que faz tese em computacao, como nos, com contrato CIFRE (em parceria com empresa) saiu em seis meses. Meu amigo ficou empolgado com a idéia e ia dar entrada, finalmente, pois ele mora aqui ha nove anos. Ele falou que é so pedir na prefeitura um formulario e fornecer uma tonelada de documentos. Quando fui pegar minha carte de séjour, em setembro, aproveitei e fui também no atendimento da cidadania pra me informar. A conversa foi mais ou menos assim, e ja cheguei fazendo o "migué", como dizem na minha terra:

― Senhora, estou renovando meu quarto titre de séjour, e como pretendo ficar aqui na França acho mais facil pedir cidadania pra facilitar a vida etc e tal.

Bom, era mentira, pois eu queria voltar pro Brasil depois da tese. Bem, na verdade minha esposa é que quer voltar a todo custo, e depois de um longo processo de autosugestao hipnotica alienante eu me convenci de que quero ir também. Mas, voltando ao dialogo com a mulher da prefeitura:

― Veja bem, senhor. O objetivo da cidadania nao é simplificar a burocracia. O negocio é integrar à pessoa à sociedade francesa.
― Sim, claro. Eu quero me integrar. Vou me candidatar a Maître de Conférences (equivalente a professor assistente) aqui e tudo.

Mentira de novo. Se eu fosse Pinoquio meu nariz ia crescer outra vez. Se bem que ia passar despercebido na França, visto o narigao que a galera tem aqui. Continuou a madame da prefeitura:

― Tudo bem. Mas veja que o estatuto de estudante é precario. Você tera poucas chances. Para obter a cidadania é importante ganhar mais que o SMIC (salario minimo) e pagar impostos.
― Olhe, eu sou estudante de doutorado mas meu estatuto é scientifique, pois sou allocataire de recherche. Como sou monitor também, fica bem acima do SMIC, e eu também ja pago impostos.
― Ah, ok. Se é assim entao você tem mais chances. Veja se você cumpre os requisitos, leve esse formulario, preencha e forneça todos os documentos listados nessa folha. Você pode adicionar outros documentos como uma carta de recomendacao, por exemplo de associaçao do bairro, para provar sua integraçao à sociedade. O tempo de resposta é de até 18 meses mas estamos trabalhando para baixar para 12 meses.

Requisitos
Os requisitos para pedir cidadania sao varios. O meu seria:
  • Morar ha pelo menos 5 anos no pais. Exceçoes para quem tem diploma superior francês e dois anos adicionais de estudo na mesma area do diploma.
No meu caso, tenho diploma de Master 2 Recherche (M2R) e mais dois anos e meio de doutorado. O fato de nao ter concluido o doutorado ainda poderia ser negativo, mas tem o historico do rapaz citado acima, que conseguiu em 6 meses ainda como doutorando. Busquei em foruns na Internet e teve gente falando em 5 meses. Como sou da area de Informatica, que ainda possui carência de profissionais na França e em varios outros paìses desenvolvidos, acho que seria um ponto positivo do meu pedido. Além de tudo isso, o prejuizo investimento ao final de nossa estadia custara algo perto dos 100 mil euros para os cofres franceses, juntando bolsas, ajudas sociais, viagens para conferências, etc. Se contabilizar a mensalidade da universidade, que é publica, acho que passa a faixa dos 100 mil. Baseado em antigas declaraçoes de Sarkozy, que pede que estudantes de BAC+5 (Master e Engenheiros) pedindo que nao retornem a seus paises, e fiquem na França, imaginei que seria o mesmo com doutores. Aquele negocio de guardar o investimento pra ter retorno. Eu achava que tinha varias razoes para receber a cidadania, além disso nossa filha nasceu aqui e eu poderia dizer que estava me enraizando, e ela se educando em instituiçoes francesas. Mesmo sem ela ter nacionalidade achava que o argumento seria valido e fortaleceria o pedido.

Just in case
Apesar de nossa filha ter nascido aqui, ela nao é francesa pois nenhum dos pais tem cidadania daqui. O direito de solo nao existe mais na França (alguém me falou que ha um tempo quem nascia era cidadao, mas nao sei se procede essa informaçao). Na verdade existe parcialmente. A criança teria direito a pedir a cidadania aos 16 anos, com a condiçao de estar morando na França e ter vivido ao menos 5 anos, nao necessariamente continuos. O lance de cidadania era mais pra ela, que ganharia automaticamente se viesse pra mim. A minha esposa estaria fora, pois o pedido dela teria que ser feito à parte, mas ela nao qualificaria por nao ter diploma + 2 anos de estudo.

Além de obter cidadania pra filha e ela poder ter uma outra opçao no futuro de querer vir estudar aqui e ter todos os beneficios possiveis, tem o lance para nos mesmos, de poder facilmente voltar caso nosso retorno ao Brasil dê em algo errado, ou se bater um arrependimento de trocar o conforto de um pais desenvolvido pelo calor (tanto do clima como da familia e amigos) da terrinha natal. Adoro a qualidade de vida daqui, e sentirei bastante impacto em varios sentidos voltando para o Brasil. Acostumar com coisa boa é facil. Desacostumar é dificil. Mas minha terra é minha terra.

Para que nao pensem que é frescura de quem vem morar na Europa, tentem me entender com um exemplo exagerado: sua mae é uma prostituta, e mora numa favela, onde você cresceu. Você vai morar em outro lugar melhor, nao mora mais naquela favela, e tem acesso a coisas melhores. Apesar de preferir essa vida nova, você sempre sera filho da puta que cresceu num favela. Mas você sempre vai amar sua mae, independente do que ela faz, e você vai sempre se sentir em casa na favela onde cresceu. De qualquer maneira, o que fazem com tua mae te incomoda, e as condicoes de vida na tua favela poderiam ser melhores, menos violencia, etc. Agora leia de novo o inicio deste paragrafo, trocando a palavra "mae" por "patria", e "favela" por "paìs". Entendeu agora?

Voltando à cidadania francesa: ficamos na duvida aqui em casa se voltariamos pro Brasil no fim do doutorado ou nao. Fica e espera cidadania? Vai ou nao vai? Como diz a letra daquele forro: Eu boto ou nao boto? Tô com medo. Decidimos que iamos voltar de qualquer maneira em outubro, depois da defesa. Dariamos entrada na papelada, e se saisse a cidadania, beleza. Senao, tranquilo também. Estava com todos os documentos ja. Até antecedentes criminais do Brasil tinha.

Documentos originais
Ao preencher o formulario vi que falavam em ficar com documentos originais. Perguntei a meu amigo que tinha dado entrada, e ele confirmou. Eles armazenam sua certidao de nascimento (no meu caso seria a de casamento) e varios outros documentos. Abort mission. Dei ré e desistimos. Nao queremos correr o risco de ir embora e deixar documentos importantes aqui, em troca de uma coisa que "pode ser que talvez de repente seja util no futuro".

Digamos que desse certo e até mesmo que nao voltassemos. Mesmo que me desse emprego publico francês, cidadania e mudassem meu nome pra Jean Pierre, eu nunca me sentiria francês. Nem português, nem norte-americano, nem o que seja-ês. Apesar de nos 14 anos vividos na minha idade adulta (dos 18 anos aos 32 que terei no fim do doutorado) ter passado metade no exterior (3 nos EUA e 4 na França). Nasci e cresci (0 a 18 anos) em Recife. Eu falo outras 3 linguas, mas nunca dominarei nenhuma como o meu português brasileiro. Sou brasileiro para sempre. Minha alma é brasileira e minha cultura é nordestina. Meu sotaque pode até ter enfraquecido, mas falo ôxe, vixe, eita porra, véi, carai. Sou brasileiro, pernambucano e megalomaniaco. Tenho raiva e amor, vergonha e orgulho da patria que me pariu.
Mas bem que um passaportezinho europeu cairia bem, no caso da minha patria mae arrumar um cafetao malvado em um governo futuro...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cançoes infantis: medo e violência

Ja falei aqui de mùsicas infantis que "grudam" no cérebro. Como pais, eu e minha esposa temos que aprender novas musicas infantis assim como resgatar de nossa memòria mùsicas que aprendemos como criança, mas nem toda mùsica é necessariamente educativa.

Maltratando animais
Eu lembro que minha mae cantava duas cançoes francesas que ela tinha aprendido na escola: alouette e frère Jacques. Na época dela, as escolas brasileiras ensinavam como lìngua estrangeira o francês e o latim. Recentemente estava procurando no YouTube a primeira, alouette, que eu ja nao lembrava mais como era. A letra é violenta, apesar de ser uma cançao infantil com ritmo bem alegre. Fala de um passarinho e de arrancar penas de sua asa, das costas, da cabeça, o bico e nao sei o que mais. Essa é uma daquelas cançoes pra memorizar uma sequência de coisas e repeti-las, aumentando o conjunto de coisas a cada repetiçao dos versos da cançao. Nesse caso, sao as partes que serao depenadas. E no final, certamente o passarinho morre, mas ninguém fala disso.

Um dos links relacionados no YouTube leva para outra cançao, chamada Souris verte. Essa também maltrata animais. Fala de um ratinho verde, e de uns senhores que mandam mergulhar o rato no oleo e depois na àgua, para que depois o ratinho vire um caracol... O pobre do rato corre é o risco de morrer afogado, isso sim.

Cançoes infantis no Brasil
Eu jà tinha lido sobre isso uma vez no Brasil, numa reportagem que falava das cançoes infantis brasileiras que aterrorizam crianças. Cançoes tipo

"boi, boi, boi, boi da cara preta,
pega esse menino que tem medo de careta"

e também

"nana neném que a Cuca vem pegar" ajudam a criança a entrar em pânico ao invés de dormir. A idéia de ameaça é clara: dorme logo criança, senao o bicho vai te pegar!

E essa:
"Marcha soldado cabeça de papel,
se nao marchar direito vai preso no quartel"

Mensagem de puniçao. Faz o negòcio direito, senao vai preso.

"Atirei o pau no gato" ficaria popular se fosse traduzido para o francês, visto o gosto pela crueldade com animais nas duas cançoes francesas mencionadas anteriormente.

"Como pode o peixe vivo viver fora da àgua fria" darà idéias para crianças maltratarem peixes, igual a mim que matava betas asfixiadas tirando-as da agua. Tentava ver quanto tempo a pobre beta sobreviveria "fora da agua fria". Certamente influência desta infame cançao.

Além do medo e do maltrato a animais, algumas mùsicas estimulam a promiscuidade feminina desde criança como na que diz "sete e sete sao catorze, vezes sete vite e um, tenho sete namorados mas nao gosto de nenhum". Caramba! Sete namorados! Sem comentàrios.

Tem outra que, ao meu ver, é mensagem subliminar para estimular namoro escondido: "papagaio louro do bico dourado, leva essa cartinha pro meu namorado". Como assim levar cartinha? Porque a menina nao leva? Ta namorando escondido é?

Pois é, musicas bonitinhas com mensagens subliminares. Se alguém aì souber de alguma outra cançao infantil que pregue violência, medo ou qualquer outro efeito colateral nocivo, mencione-a nos comentarios. Quem sabe assim podemos catalogar essas cançoes "do mal" e criar versoes politicamente tais como "nao atire o pau no gato".

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Vergonha" de ser nordestino


Uma febre de xenofobia que se alastrou no Brasil logo apòs as eleiçoes (quem esta por fora do ocorrido, veja aqui). Eleitores de José Serra culpam os eleitores do Nordeste pela eleiçao de Dilma Rousseff.

Calculos infelizes
Segundo o site do TSE, os eleitores do Nordeste representam 27% do total do paìs. Acho que o problema foi desuniao da elite econômica, visto que os pobretoes miseraveis do Nordeste nao conseguiriam eleger Dilma sozinhos. Logo, nas outras regioes ha "traidores" que votaram em Dilma.

Vergonha
Neste momento, estou com muita vergonha de ser nordestino. Todas essas verdades doem muito. Tenho pensado no suicìdio, pois com um nordestino a menos o Brasil ficaria melhor. Ainda bem que estou na França e esse sentimento é atenuado, visto que aqui sou mais um estrangeiro oriundo de paìs pobre (pode-se também dizer "em vias de desenvolvimento") e ninguém liga pra o fato de qual regiao de meu paìs eu venho. Sou apenas brasileiro, se é que os xenòfobos me permitem ser. Eu posso provar. Tenho passaporte brasileiro e tudo.

Eu tenho vergonha de ser nordestino por sermos burros. Mas sempre tem gente dando força pra nòs. Acho bacana o que fazem no Rio e em SP dando emprego a nordestinos conseguem contar piada nos programas de TV. Em SP, onde tem mais gente inteligente, até deram emprego de deputado para um palhaço nordestino. Hà 8 anos elegeram Lula como presidente, que chegou em SP como retirante. Por consideraçao o mundo todo até chama ele de inteligente, e o cara ja ganhou até titulo de doutor honoris causa.

Somos burros e nao conseguimos fazer avioes no Nordeste. O maximo que saiu foi uma fabrica de jipes, que até participou do Paris-Dakar algumas vezes, chegando a ser vice-campeao em sua categoria. A Ford comprou a fabrica em 2006, pois nordestino nao tem direito a ter nem fazer coisa boa. E se for pra mexer com computador, qualquer burrao consegue, nao é verdade? Ainda bem, pois com isso Recife virou polo de informàtica com um bando de jumento programando. Teve até obra de caridade da Motorola pra montar centro mundial de testes em Recife. A maior rede de supermercados do Nordeste dava vergonha, pois era nordestina. Eles mesmo diziam que tinham vergonha de serem nordestinos. Agora dà orgulho, pois é dos gringos do Walmart.

A pobreza cultural é de dar vergonha. Apenas alguns poucos ritmos como caboclinho, forrò, baiao, côco, xaxado, axé, frevo, maracatu, ciranda, bumba-meu-boi, e recentemente apareceu um tal de manguebeat que Chico Science e Naçao Zumbi levaram para o Brasil. O artesanato daqui nao tem identidade pròpria, tipo as rendas do Cearà ou os bonecos de mestre Vitalino. Pra dar uma forcinha ao nordestinos, muita gente comprou livros de Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Gonçalves Dias, José de Alencar, José Lins do Rego, Ariano Suassuna e outros burroes nordestinos.

Nossa regiao nao dispoe de tantas terras férteis. Isso dificulta o agronegocio que traz tanto dinheiro para regioes como Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Mas ainda tem gente insistindo em plantar no sertao. E o povo ainda implica com o projeto de transposiçao de àguas do Sao Francisco.

Eu tenho vergonha de ser nordestino por falarmos feio. Eu queria falar bonito igual ao povo da novela. Tem atriz pernambucana que foi pra Globo e aprendeu a falar "gentxe" ao invés de gente. O danado é que o sotaque que o povo de là faz quando a novela se passa no Nordeste eu nunca vi em lugar nenhum. Acho que é do décimo estado nordestino.

Pedimos desculpa pela estética de nossas cabeças chatas incomodar tanto. Os europeus que vieram para o Nordeste se misturaram demais com ìndios e escravos africanos ao longo dos anos, aì deu nisso: um povo bem brasileiro. Ja a leva mais recente de imigrantes camponeses europeus que vieram ser explorados em lavouras de café ou que embarcaram com promessas de lindas terras na América, deu uma injeçao de beleza caucasiana na populaçao. Imagino que esse pessoal de sobrenome importado (tipo Prickenstein ou Piriguetti) nao acha que tem sangue nobre. A maior parte deles tem origem tao pobretona quanto nòs, os cabeças chata da Silva ou dos Santos.

Bom, vou terminando as vergonhas por aqui, pois ainda tem tantas outras coisas pra me envergonhar. A grande revolta dos que desejam o mal nordestino é o nosso progresso. Talvez os grandes investimentos feitos recentemente no Nordeste revolte os xenòfobos. Numa sociedade justa o dinheiro vai dos ricos para os pobres para equilibrar a balança. Até a Suiça tem regioes consideradas mais "pobres". Là a regiao italiana suga recursos gerados pelas Suiças alema e francesa. Na Bélgica a parte francesa (Wallonia) "mama" recursos de impostos vindo da regiao de Bruxelas e da parte neerlandesa (Flandres).

O problema é que se matarem muito nordestino, como foi pedido por alguns, o Brasil perde muita força de trabalho. Nordestinos viajaram pra Amazonia pra tirar leite de pau na época àurea da borracha, comeram bastante poeira construindo Brasìlia, fizeram e fazem parte da força laboral dos grandes pòlos industriais do Sudeste. Além dos nordestinos burros que trabalham no mercado de serviços das cidades mais ricas do paìs, tem também os mais burros, que trabalham de babà, faxineiro(a), pedreiro, encanador, eletricista, cozinheiro, etc. Espero que ninguém leve os pedidos a sério e comece com a matança. Mas se matarem alguém por engano, vao justificar: "eu pensei que fosse um nordestino"

domingo, 10 de outubro de 2010

Brasil em foco na França



Este post chega relativamente atrasado, mas em setembro o Brasil estava em alta na imprensa da França, provavelmente devido à eleiçao presidencial que se aproximava. Dois periodicos deram destaque ao Brasil em ediçoes do mês de setembro:
  1. O Le Monde publicou uma ediçao especial intitulada "Brésil, um géant s'impose" (um gigante se impoe)
  2. O Courier International, na ultima ediçao de setembro, deu destaque ao Brasil dizendo na capa "Le miracle Lula existe-t-il?" (O milagre Lula existe?)

sábado, 10 de abril de 2010

Viva o sistema bancário brasileiro

Hà algumas semanas fui fazer um depòsito numa conta do BNP Paribas, o maior banco francês e um dos maiores da Europa. Saquei dinheiro no meu banco, e fui tentar fazer o deposito "na boca do caixa". Tento mais ou menos reproduzir o diàlogo com o senhor engravatado que me atendeu:
— Bonjour — disse o senhor engravatado
— Bonjour. Gostaria de fazer um depòsito — respondi ao Monsieur
— Você pode fazer direto na màquina com seu cartao
— Mas a conta nao é minha, é de outra pessoa— mostrei um papel com os dados
— Infelizmente nao é possìvel. Apenas o titular da conta com seu cartao poderia fazê-lo
— O senhor aceita que eu deposite em cheque?
— Infelizmente nao.
— Mas eu fiz isso uma outra vez. O caixa pediu apenas que eu endossasse o cheque.
— Houve algum engano pois apenas o titular da conta beneficiària pode endossar o cheque
— Qual agência BNP aceita o depòsito entao? — perguntei irritado
— Nenhuma, o senhor terà que efetuar uma transferência bancària a partir de sua conta. Basta usar os dados deste papel que o senhor me mostrou.
— Ok. Merci. Au revoir — respondi polidamente, mas ainda mais irritado

Que sistemazinho bancàrio, viu? Pra ter uma idéia, tenho conta no Société Générale, um outro mega banco europeu, e o sistema de Internet Banking é basicao. Vejam a imagem abaixo pra ter idéia. Nada comparado às trocentas funcionalidades dos avançados sistemas brasileiros.


Pra o caro leitor que desconhece, o Brasil tem um dos sistemas bancàrios mais high-tech do mundo. Graças à economia volàtil dos anos 80, os analistas e programadores de sistemas bancàrios desenvolveram sistemas flexìveis pra atender ao caprichos e mudanças governamentais adicionando impostos com regrinhas complexas como CPMF e IOF à diversos tipos de transaçoes bancarias.

Uma das poucas coisas que acho legal do sistema bancàrio daqui em relaçao ao Brasil, é que posso fazer saque no caixa eletrônico de qualquer outro banco dentro da zona Euro, seja na França, Bélgica, Portugal, Grécia, etc, posso tirar dinheiro sem qualquer custo adicional. O que nao acontece no Brasil com a rede Banco 24 Horas, da Tecban.

domingo, 27 de setembro de 2009

A baixa qualidade dos produtos do Brasil (especialmente no Brasil)

Ontem minha esposa achou biscoito Maria num supermercado daqui. Produto de origem espanhola. Ela me falou que lembrava o biscoito Maria de "antigamente" là do Brasil. Peguei o pacote e provei um. Ela tinha razão. Não sei se todos tem isso de comer algo e lembrar de alguma época, mas lembranças de minha infância vieram à tona. Mas e o biscoito Maria de hoje? Não sei se todos os brasileiros lembram que a qualidade de alguns produtos relativamente tradicionais vem caindo com o passar dos anos. O biscoito Maria jà não tem comparação com o de antes, não importa qual a marca. Biscoitos Bono (que quando eu era criança nem tinha esse nome) também caìram de qualidade, e até aqueles Divertidos (que virou Passatempo) que hoje eu não como nem de graça. Queda da qualidade pra não subir preço ou para aumentar lucros? Muda o nome do produto, derruba a qualidade e aumenta o preço.

Meu pai falava que quando ele era criança, a mãe dele na cozinha abria uma lata de biscoito cream cracker da Pilar (vinha em lata!) desenrolava o papel não sei o que (ou era papel manteiga ou papel alumìnio, não lembro) e ele sentia o cheiro na sala. E por que hoje uma cream cracker não é tão apetitosa? Troca de ingredientes do preparo como manteiga por margarina vegetal, depois por alguma outra gordura vegetal de pior qualidade? Farinha de trigo A por Z?

Embalagem
Ficamos impressionados aqui com a qualidade dos produtos aqui na França. Não compramos coisas caras. Damos sempre preferência aos produtos "da casa" nos supermercados. Mas a qualidade na grande maioria das vezes supera os produtos caros brasileiros. Laticìnio não tem nem o que dizer, pois a França tem excelência nesse setor. Os produtos marba (marbarato) dão de chinelo nos marca (marcaro) brasileiros. Jà que estou falando de biscoito, vamos usà-los como referencial. Tem uns biscoitos baratinhos, pacote a menos de um Euro, com a embalagem cheia de frescura, com proteção lateral em sanfoninha pra não esfarelar a borda. Outro pacotes de biscoito a menos de um Euro, cobertos com chocolate ao leite (tudo bem que o percentual de cacau não é igual ao de uma barra de chocolate) e uma embalagem também super high-tech. Outros entre 1 e 2 euros, com gavetinha de plastico embalado em papel alumìnio pra "manter o frescor". Manteiga pra entupir a veia de um, o que faz uma diferença muito grande no sabor.

Arabica ou robusta?
E o café? Como podemos explicar que eu compro café brasileiro de melhor qualidade (tipo aràbica) que o café das prateleiras (tipo robusta) do Brasil? E quando se tem sorte de encontrar café brasileiro do tipo aràbica em supermercado brasileiro, geralmente é mais caro do que no exterior. Acreditem.
Aquela fama do café brasileiro no mundo não é com o café que compramos aì, é com o aràbica que é exportado.

Frutas
As frutas brasileiras que são exportadas são bem escolhidas. O que não passa no controle de qualidade (fruta amassada, calibre menor, manchas na casca, etc) são o chamado refugo, que vira suco ou é vendido pro consumidor local (no Brasil, claro!). O que é bom tem que ir pra fora. Pelo menos no quesito sabor, o da fruta comprada no Brasil tem chance de ser melhor do que a exportada, pois apesar de bonitas e sem manchas, as frutas tropicais que chegam aqui no primeiro mundo vem amadurecendo no caminho o que é bem diferente de amadurecer na àrvore.

Imagino que sempre deve existir um cuidado especial com a qualidade de produtos de exportação, mas serà que a diferença dos nìveis de qualidade tem que ser tão grande?

Chocolate

Terra de exportação de cacau, e um dos maiores produtores do mundo, não produzimos chocolate tão bom quanto o cacau. O chocolate europeu tem mais fama e qualidade. Nas embalagens de chocolate daqui da França, geralmente se indica o percentual de cacau daquele chocolate. Não temos know-how ou é pirangagem mesmo de colocar um pouquinho mais de cacau no chocolate made in Brazil?

Tudo isso pode parecer frescura de brasileiro metido morando na Europa, mas é um pouco de frustração, de revolta. Espero que no caso da Petrobras com tanto petroleo sendo descoberto não continue exportando oleo cru e importando refinado. Tem as explicações do tipo de petròleo leve versus pesado, custo de refinar, etc. Mas na Venezuela, que produz bastante petroleo, combustìvel é provavelmente mais barato que àgua engarrafada, pneu é brincadeira e as estradas são um tapete.

Enquanto sigo por aqui pela Europa vou aproveitando a qualidade dos produtos do meu Brasil com Z, export quality. Tomando café brasileiro de sabor suave acompanhado de um chocolatinho à base do melhor cacau brasileiro. Quando voltar pro Brasil vou de café robusta amargo (bastante açucar pra ver se melhora) com gordura hidrogenada sabor cacau, pois pobre não tem direito a comer as coisas boas do seu quintal senão falta pra vender na feira.