quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Escolhas

Eu digo que é sempre bom ter-se uma opçao apenas. Porque quando temos mais de uma começa a ficar dificil tomar decisoes. Especialmente quando se esta inseguro. Ja falei aqui que voltaremos para o Brasil apos minha defesa do doutorado. No post anterior falei que o pedido de cidadania francesa furou. Hoje foi a vez de eu declinar um convite de pos-doc. Apenas a carater informativo: pos-doutorado nao é titulo. O grau acadêmico maximo é o doutorado. Logo, esta meio furada a afirmaçao "fulano(a) é pos-doutor(a)". Pos-doc refere-se ao periodo (geralmente entre 1 e 3 anos) passado por um doutor em uma instituiçao de pesquisa (universidade, instituto, departamento de P&D de empresa, etc). Tem doutor que fica pulando de galho em galho fazendo pos-doc por muitos e muitos anos, mas o normal é ficar um ano em um pos-doc e em seguida arrumar algo mais duradouro. Professores doutores também fazem pos-doc (utilizava-se o termo periodo sabatico), servindo pra dar uma atualizada ou aprofundada em alguma area do conhecimento.

Non, merci
Normalmente um doutorando (ou mesmo um recém doutor) rala pra encontrar pos-doc legal. Esse que declinei caiu no colo. Meu orientador falou pra um arquiteto de software do departamento de P&D de uma grande empresa de telecomunicaçoes européia (aquela com nome de fruta) que eu estava acabando a tese e buscava um pos-doc. Ele conhece a tematica com que trabalho, que tem a ver com os projetos do departamento dele. Recebi o convite para continuar com eles na mesma linha de pesquisa de minha tese. Um framework (para os leigos: digamos que seja um software que serve de infraestrutura para fazer outros softwares) deles entrarà em fase de industrializaçao, e eu iria aplicar neste projeto tecnicas que usei na minha pesquisa do doutorado. O projeto pronto potencialmente poderia entrar nos produtos dele a médio prazo, que em alguns anos significaria milhoes de usuarios. Claro que produtos de pesquisa tem sempre grande potencial de serem engavetados e nunca chegar perto do mercado. A possibilidade de milhoes de usuarios é altamente motivadora. Fora o desafio, a grana ia aumentar pelo menos uns 50% em relaçao ao que ganho hoje, que ja nao é ruim pro padrao francês mas também nao é boa, ainda mais para uma familia de 3. Se tivesse abertura pra negociaçao eu até choraria pra ganhar mais. Soube que eles tem varios beneficios, inclusive passagens aéreas baratas.

Mas ja é passado. Tive que declinar, pois entra o lado familiar visto que a nossa decisao é retornar para Pindorama. Minha esposa esta vivendo quase 4 anos aqui na França sem nunca querer ter saido do Brasil. O estranho é que ela gosta daqui, mas nao gosta do fato de estar aqui. Acho que foram os anos mais dificeis da minha vida (e da dela imagino que também). A infelicidade dela era diariamente aparente, com breves momentos de alegria. Depois que ficou decidida a volta, o bom humor dela ficou mais frequente, e o brilho nos olhos dela parece até que aumentou. Uma pena que eu e nossa filha nao sejamos suficientes pra felicidade dela. Pra mim o trio ta otimo. Mas, cada um é cada um.

Valorizaçao dos trabalhos de tese
Ainda nao defendi a tese, mas fico motivado pelo que faço ter uso no mercado. Em uma apresentaçao nao tanto acadêmica que fiz em 2009, uma pessoa se interessou pelas técnicas que proponho. Fiquei desconfiado se o cara realmente tava interessado. Achei que ele estava louco em pensar que o que eu fazia era interessante. Hoje ele aplica essas técnicas no produto em desenvolvimento na empresa start-up que ele criou, e atualmente eu e meu orientador damos consultoria pra esta empresa através de um contrato formal com nosso laboratorio.

Voltando para o Brasil provavelmente terei que fazer outra coisa. Minha pesquisa atual nao tem espaço no mercado brasileiro, que normalmente usa tecnologia pronta ao invés de desenvolver. A interaçao universidade-mercado na França nao é tao forte como nos EUA, mas é bem mais avançada que no Brasil. Por incrivel que pareça, a impressao que tenho da academia brasileira é que predominam abordagens cientificas e formais, enquanto na França (e na Europa em geral) vejo tanto isso quanto pesquisas aplicadas diretamente no mercado.

Sem precisar fazer lobby nem correr atras de nada, a tal "valorizacao dos trabalhos de tese" (um termo que usam aqui na França) aconteceu meio que naturalmente. Muita gente trabalha em pesquisa de doutorado durante 3, 4 anos, defende, engaveta a tese e nunca mais se fala naquilo. Antes mesmo de terminar a minha ja pude fazer reais contribuiçoes. Tenho (ou tinha) um grande complexo de inferioridade por ser aluno de universidade privada tentando se meter em meio acadêmico. O fato de vir a um pais de primeiro mundo, poder dizer "olha, vocês poderiam fazer isso assim" e te darem ouvidos me deixou bastante satisfeito. Essas pequenas vitorias me ajudaram a superar esse trauma e melhorar minha autoestima.

What if
Mas, em nome da familia, agora é hora de eu abrir mao de algo. O processo de auto sugestao hipnotica alienante power plus plus de me convencer para a volta esta tranquilo. Eu acho (percebam como estou decidido). Estou convencido de que quero voltar agora. Claro que sim! o boom economico do Brasil, os concursos, investimentos no Nordeste, o legado de Lula. Eh agora ou nunca! * pausa* Cada vez mais acho que este post é parte do trabalho de autoconvencimento, autoconformaçao, autoetc para "eu mesmo me auto justificar para mim". Bom, se eu nao voltar fico sem familia pois minhas meninas voltariam sem mim. Se é pra voltar, tenho que querer, ou ao menos me convencer que agora é a boa hora. *fim pausa* Mas, o plano atual de retornar e prestar concurso de professor adjunto em federal vai ter que esperar devido a noticia que vi hoje dos cortes que o governo fez no orçamento de 2011 (preciso tirar os concursos da lista acima). Coincidência bizarra de acontecer isso no dia que eu recuso um pos-doc legal. Sem previsao para concursos, é hora de traçar o plano D e talvez buscar emprego de novo no mercado brazuca, rasgando o diploma de doutorado que ainda nem tenho pois doutorado nao serve de nada nesse mercado de onde vim.

Entretanto, ficara pra sempre a duvida do "e se eu ficasse um pouquinho mais de tempo na França, até onde iria tudo isso?" (isso me lembra o what if das historinhas da Marvel). Afinal, nao tenho vinculo com Capes nem CNPq que me obrigue a voltar. Um aninho a mais, daria tempo pra tirar cidadania, juntar mais uns eurinhos pra voltar e quem sabe dar mais umas turistadas pelas redondezas. O problema também é que ficando, no futuro surgirà o "e se tivessemos voltado logo apos o fim do doutorado?".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cidadania francesa

Nao, nao tirei a minha. Quase. Conto a historia a seguir.
Em setembro do ano passado, ao voltar conversei com um amigo marroquino la do laboratorio que disse que ia dar entrada na cidadania francesa. Ele falou que a cidadania de um amigo dele que faz tese em computacao, como nos, com contrato CIFRE (em parceria com empresa) saiu em seis meses. Meu amigo ficou empolgado com a idéia e ia dar entrada, finalmente, pois ele mora aqui ha nove anos. Ele falou que é so pedir na prefeitura um formulario e fornecer uma tonelada de documentos. Quando fui pegar minha carte de séjour, em setembro, aproveitei e fui também no atendimento da cidadania pra me informar. A conversa foi mais ou menos assim, e ja cheguei fazendo o "migué", como dizem na minha terra:

Senhora, estou renovando meu quarto titre de séjour, e como pretendo ficar aqui na França acho mais facil pedir cidadania pra facilitar a vida etc e tal.

Bom, era mentira, pois eu queria voltar pro Brasil depois da tese. Bem, na verdade minha esposa é que quer voltar a todo custo, e depois de um longo processo de autosugestao hipnotica alienante eu me convenci de que quero ir também. Mas, voltando ao dialogo com a mulher da prefeitura:

Veja bem, senhor. O objetivo da cidadania nao é simplificar a burocracia. O negocio é integrar à pessoa à sociedade francesa.
Sim, claro. Eu quero me integrar. Vou me candidatar a Maître de Conférences (equivalente a professor assistente) aqui e tudo.

Mentira de novo. Se eu fosse Pinoquio meu nariz ia crescer outra vez. Se bem que ia passar despercebido na França, visto o narigao que a galera tem aqui. Continuou a madame da prefeitura:

Tudo bem. Mas veja que o estatuto de estudante é precario. Você tera poucas chances. Para obter a cidadania é importante ganhar mais que o SMIC (salario minimo) e pagar impostos.
Olhe, eu sou estudante de doutorado mas meu estatuto é scientifique, pois sou allocataire de recherche. Como sou monitor também, fica bem acima do SMIC, e eu também ja pago impostos.
Ah, ok. Se é assim entao você tem mais chances. Veja se você cumpre os requisitos, leve esse formulario, preencha e forneça todos os documentos listados nessa folha. Você pode adicionar outros documentos como uma carta de recomendacao, por exemplo de associaçao do bairro, para provar sua integraçao à sociedade. O tempo de resposta é de até 18 meses mas estamos trabalhando para baixar para 12 meses.

Requisitos
Os requisitos para pedir cidadania sao varios. O meu seria:
  • Morar ha pelo menos 5 anos no pais. Exceçoes para quem tem diploma superior francês e dois anos adicionais de estudo na mesma area do diploma.
No meu caso, tenho diploma de Master 2 Recherche (M2R) e mais dois anos e meio de doutorado. O fato de nao ter concluido o doutorado ainda poderia ser negativo, mas tem o historico do rapaz citado acima, que conseguiu em 6 meses ainda como doutorando. Busquei em foruns na Internet e teve gente falando em 5 meses. Como sou da area de Informatica, que ainda possui carência de profissionais na França e em varios outros paìses desenvolvidos, acho que seria um ponto positivo do meu pedido. Além de tudo isso, o prejuizo investimento ao final de nossa estadia custara algo perto dos 100 mil euros para os cofres franceses, juntando bolsas, ajudas sociais, viagens para conferências, etc. Se contabilizar a mensalidade da universidade, que é publica, acho que passa a faixa dos 100 mil. Baseado em antigas declaraçoes de Sarkozy, que pede que estudantes de BAC+5 (Master e Engenheiros) pedindo que nao retornem a seus paises, e fiquem na França, imaginei que seria o mesmo com doutores. Aquele negocio de guardar o investimento pra ter retorno. Eu achava que tinha varias razoes para receber a cidadania, além disso nossa filha nasceu aqui e eu poderia dizer que estava me enraizando, e ela se educando em instituiçoes francesas. Mesmo sem ela ter nacionalidade achava que o argumento seria valido e fortaleceria o pedido.

Just in case
Apesar de nossa filha ter nascido aqui, ela nao é francesa pois nenhum dos pais tem cidadania daqui. O direito de solo nao existe mais na França (alguém me falou que ha um tempo quem nascia era cidadao, mas nao sei se procede essa informaçao). Na verdade existe parcialmente. A criança teria direito a pedir a cidadania aos 16 anos, com a condiçao de estar morando na França e ter vivido ao menos 5 anos, nao necessariamente continuos. O lance de cidadania era mais pra ela, que ganharia automaticamente se viesse pra mim. A minha esposa estaria fora, pois o pedido dela teria que ser feito à parte, mas ela nao qualificaria por nao ter diploma + 2 anos de estudo.

Além de obter cidadania pra filha e ela poder ter uma outra opçao no futuro de querer vir estudar aqui e ter todos os beneficios possiveis, tem o lance para nos mesmos, de poder facilmente voltar caso nosso retorno ao Brasil dê em algo errado, ou se bater um arrependimento de trocar o conforto de um pais desenvolvido pelo calor (tanto do clima como da familia e amigos) da terrinha natal. Adoro a qualidade de vida daqui, e sentirei bastante impacto em varios sentidos voltando para o Brasil. Acostumar com coisa boa é facil. Desacostumar é dificil. Mas minha terra é minha terra.

Para que nao pensem que é frescura de quem vem morar na Europa, tentem me entender com um exemplo exagerado: sua mae é uma prostituta, e mora numa favela, onde você cresceu. Você vai morar em outro lugar melhor, nao mora mais naquela favela, e tem acesso a coisas melhores. Apesar de preferir essa vida nova, você sempre sera filho da puta que cresceu num favela. Mas você sempre vai amar sua mae, independente do que ela faz, e você vai sempre se sentir em casa na favela onde cresceu. De qualquer maneira, o que fazem com tua mae te incomoda, e as condicoes de vida na tua favela poderiam ser melhores, menos violencia, etc. Agora leia de novo o inicio deste paragrafo, trocando a palavra "mae" por "patria", e "favela" por "paìs". Entendeu agora?

Voltando à cidadania francesa: ficamos na duvida aqui em casa se voltariamos pro Brasil no fim do doutorado ou nao. Fica e espera cidadania? Vai ou nao vai? Como diz a letra daquele forro: Eu boto ou nao boto? Tô com medo. Decidimos que iamos voltar de qualquer maneira em outubro, depois da defesa. Dariamos entrada na papelada, e se saisse a cidadania, beleza. Senao, tranquilo também. Estava com todos os documentos ja. Até antecedentes criminais do Brasil tinha.

Documentos originais
Ao preencher o formulario vi que falavam em ficar com documentos originais. Perguntei a meu amigo que tinha dado entrada, e ele confirmou. Eles armazenam sua certidao de nascimento (no meu caso seria a de casamento) e varios outros documentos. Abort mission. Dei ré e desistimos. Nao queremos correr o risco de ir embora e deixar documentos importantes aqui, em troca de uma coisa que "pode ser que talvez de repente seja util no futuro".

Digamos que desse certo e até mesmo que nao voltassemos. Mesmo que me desse emprego publico francês, cidadania e mudassem meu nome pra Jean Pierre, eu nunca me sentiria francês. Nem português, nem norte-americano, nem o que seja-ês. Apesar de nos 14 anos vividos na minha idade adulta (dos 18 anos aos 32 que terei no fim do doutorado) ter passado metade no exterior (3 nos EUA e 4 na França). Nasci e cresci (0 a 18 anos) em Recife. Eu falo outras 3 linguas, mas nunca dominarei nenhuma como o meu português brasileiro. Sou brasileiro para sempre. Minha alma é brasileira e minha cultura é nordestina. Meu sotaque pode até ter enfraquecido, mas falo ôxe, vixe, eita porra, véi, carai. Sou brasileiro, pernambucano e megalomaniaco. Tenho raiva e amor, vergonha e orgulho da patria que me pariu.
Mas bem que um passaportezinho europeu cairia bem, no caso da minha patria mae arrumar um cafetao malvado em um governo futuro...

domingo, 2 de janeiro de 2011

Tió de Nadal

Nao tenho costume de postar neste blog detalhes de todas as nossas viagens. Nao ouso postar roteiros pois tem muitos blogs e sites com foco em turismo que deixam tudo mastigadinho. Normalmente falo de algo que achei interessante. Portanto, aqui vai um post sobre um assunto interessante relacionado à nossa ùltima viagem.

Depois de tantos Natais distantes, pudemos passar um Natal em familia. Fomos à casa de minha prima em Barcelona, e meus tios também estavam là de férias. Conhecemos o filho dela, que com quatro anos de idade jà domina muito bem três idiomas: catalao, espanhol e português, e ainda arranha o inglês.

Dentro desse contexto familiar, ficamos à par de um costume catalao um tanto curioso para os estrangeiros: o Tió de Nadal, algo como tronco de Natal em catalao. No domingo de Natal fomos almoçar na casa da familia do esposo de minha prima e ele nos mostrou um tronco com uma carinha pintada. As crianças levam comida pra o "tió" se alimentar bem para que no dia de Natal possa cagar muitos presentes. Cagar. O temo xulo mesmo. Essa é a palavra que usam na musiquinha que começa "caga tió, tió de Nadal, ...". As crianças cantam e dao paulada no "tió" e depois levantam o manto por tras do tronco pra ver o que ele "cagou". A màgica é que os pais disfarçadamente escondem presentes embaixo do manto a cada sessao de pauladas.

Ah, e outro detalhe "cagao" é que no presépio catalao é comum adicionar a figura de um bonequinho "cagando". Algumas imagens de diferentes "caganers" aqui.

Seguro Saùde na França III

Mais um post da série seguro saùde. Desta vez o tema é atendimento no exterior.

Fomos passar o Natal na casa de minha prima que mora em Barcelona, na Espanha. Foi tudo muito legal, etc e tal até que por duas noites seguidas nossa filhinha de 11 meses teve febre e sono muito inquieto. Na primeira noite o paracetamol ajudou. Na segunda ja nao ajudou tanto. Coincidentemente, o filho de 4 anos da minha prima estava adoentado também, mas com amigdalite. Na manha seguinte o passeio turistico foi conhecer o sistema de saùde espanhol. Espero que minha filha nao esteja seguindo os passos da mae como turista hospitalar.

Carte européenne d'Assurance Maladie
No ambulatorio que fomos me pediram a carte européenne d'Assurance Maladie. Eu nao tinha. Também nao sei dizer se o fato de ser estrangeiro seria impeditivo para ter esta carteira. Pelo que entendi essa carteirinha da cobertura em toda Europa. Ela deve ser solicitada com pelo menos duas semanas de antecedência da viagem, e tem validade por um ano. Meu primo, que tem a carteirinha da Espanha mesmo teve consulta marcada, e para minha filha, que nao tinha uma carteira de saùde que fosse aceita là, sugeriram ir pra um hospital maior, o Saint Pau.

No meio do caminho minha prima ainda tentou outro hospital menor, mas falaram a mesma coisa: so seriamos atendidos no Saint Pau. Chegando no Saint Pau, que têm na urgência um guichê de atendimento internacional, minha prima explicou que moravamos na França, carteira, doença, etc, e logo o cara ja começou a falar em francês comigo, trouxe um formulario pra preencher e ja avisou que teriamos que pagar a conta, mas que seriamos reembolsados na França por nosso plano de saùde.

A fila de espera estava pequena, e minha filha foi logo (pré)atendida por uma jovem mulher de branco (nao sei se era médica ou enfermeira) pouco simpatica, que pediu para deixar nosso bebê apenas de fralda e alguém viria logo atendê-la. Depois de mais de uma hora de espera, chegou uma médica, bem mais legal que a primeira mulher. Ela diagnosticou uma otite na nossa filha, a medicou e receitou três medicamentos (Iboprufeno, Amoxicilina e um outro que nao lembro). Desde entao ela so tem melhorado e felizmente passa bem (tirando a catarreira de inverno).

Resumindo, o valor da conta: 205 euros, que tivemos que pagar là.
Chegando na farmàcia, em Barcelona ainda, o preço dos medicamentos nos surpreendeu: 2,95 euros. Pelo que entendemos, esse valor foi baixo por ter sido receitado pelo hospital publico. A verificar se o nosso entendimento foi correto.

Reembolso
Ao chegar em Grenoble, fui à MGEN, que é nosso plano de saùde que cuida da cobertura de base e mutuelle (o complemento). La me deram um formulario e me aconselharam a telefonar para o serviço de atendimento no exterior para esclarecer minhas dùvidas. Liguei e perguntei se os 205 euros seriam reembolsados 100%. Falaram que iam "estudar o dossiê" mas provavelmente seria reembolsado se apresentasse todos os documentos necessarios (recibo, boletos de viagem e formulario preenchido) visto que os gastos de urgência sao cobertos até mil euros.

Amanha devo ir na MGEN entregar tudo e em seguida aguardar o resultado da anàlise da papelada, que deve durar pelo menos de três semanas.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Seguro Saùde na França II

Ja escrevi outra vez, por alto, como funciona (ou ao menos como eu entendo) o seguro de saùde na França. Cada vez mais eu me surpreendo com coisas que vamos descobrindo aos poucos. A surpresa recente foi ontem. Fomos à ultima consulta pediatrica obrigatoria de nossa filha, antes de completar 1 ano. Ela estava gripada, e perguntamos se seria bom fazer nebulizaçao. Eu e minha esposa ja tinhamos decidido em casa sobre comprar um nebulizador. A pediatra falou que a nebulizaçao seria uma boa idéia, e disse que ia nos prescrever o aluguel de um nebulizador. Ainda foi mais gentil e telefonou para uma empresa que instala em casa, ao invés de termos que ir buscar na farmàcia. Perguntamos à ela se tinhamos que pagar algo, e ela disse que nao pois os planos de saùde cobrem isso também.

Apesar dos franceses reclamarem (isso é normal, afinal eles reclamam de TUDO) eu admiro bastante como funciona o sistema de saùde daqui. Realmente existem problemas de atualizaçao quando mudamos de plano, bronca na carteirinha, protocolos de reembolso que sao perdidos, etc. Como tudo é muito burocratico por aqui, realmente acontecem atropelos no sistema de saùde, e por vezes é complicado de entendê-lo.

O sistema de saùde segue um modelo privado. Você paga por tudo. Até hospital universitario cobra (imagino que sejam do governo, visto que universidades sao publicas). Entretanto, todos possuem (ou deveriam) plano de saùde. Se nao tem condiçoes de pagar um plano privado, o governo tem um (Caisse d'Assurance Maladie) que pode até sair gratis dependendo da renda da pessoa. Os EUA estao em vias de mudar seu sistema de saùde para algo "inspirado" nesse modelo usado na França.

Descobertas
Ja se passou mais de um ano e meio depois do post mencionado. Desde la descobrimos varias novidades sobre direitos, hospitalizaçoes, etc. Na época daquele post eu nem sabia que ia ser papai. Vamos às "descobertas" do que mais os planos de saude cobrem aqui na França:
  1. Minha esposa ficou gravida, e gestantes possuem muitos direitos. Do sexto mês de gravidez até 12 dias apòs o parto, elas tem direito a atendimento médico gratuito, medicamentos, exames de laboratorio e hospitalizaçoes. Tudo isso na verdade é independente de ter plano de saùde ou nao.
  2. Medicamentos com prescricao médica sao, em grande maioria, pagos pelo plano. Essa nao é novidade. Ja tinha dito aqui, mas isso continua me impressionando. Minha filha em menos de um ano de vida consumiu muitos medicamentos e vitaminas. Nada fora do normal, nenhuma doença grave. Coisas cotidianas. No Brasil eu teria "quebrado" se fosse pagar tudo que ela consumiu. Raramente desembolsamos algo para pagar medicamentos.
  3. Um curso de 8 aulas de preparaçao para a maternidade é pago pelo plano, com um tipo de enfermeira sage femme, um tipo de especialista em gestantes e bebês.
  4. Uma série de visitas da sage femme à casa da mamae, para fazer acompanhamento da amamentaçao e da evoluçao do peso e tamanho do bebê nas primeiras semanas de vida.
  5. Fisioterapia, com a sage femme ou um fisioterapeuta, para a recuperaçao da mamae no pos-parto.
  6. Aluguel de aparelhos é coberto pelos planos. Minha esposa teve uma bomba elétrica para tirar leite alugada por três meses, tudo pago pelo plano. Nossa filha precisou de um nebulizador, e tudo é coberto pelo plano, como dito antes.
  7. Minha esposa quebrou o punho no primeiro semestre apòs eu desferir um golpe nela com um cano de ferro. Brincadeira. Ela caiu andando de patins (ela sempre confirma esta versao, caso contrario quebro o outro pulso dela). Recebemos pelo correio a fratura, quer dizer, a fatura apenas a titulo informativo. O total passou dos seis mil euros. Cirurgias sao cobertas pelo plano, com a gloria divina. E "graças" ao incidente de asma (se ainda nao leu, esta aqui) com minha esposa, hoje temos mutuelle para ajudar a cobrir tudo.
  8. Curativos em casa. Prescreveram uma série de curativos nos pontos da cirurgia do pulso dela. Os enfermeiros vinham em casa, usavam o kit que "compramos" (pago pelo plano) na farmacia, pegavam a carteirinha dela, inseriam na maquina GPRS (tipo aquelas de cartao de crédito), e pronto. Nenhum euro saia dos nossos bolsos.
Percebe-se que graças à minha esposa pudemos aprender bastante sobre hospitais e coisas do gênero. Vejam mais aqui. Recentemente ela se cortou em casa e sangrou bastante. Eu errei a aorta e acertei outra artéria em sua perna. Brincadeirinha, de novo. Na verdade ela se cortou sozinha com um minusculo estilete uma faca de precisao, mas aparentemente mortal. Segundo ela o objeto inanimado tomou vida propria, escorregando da mao dela e caindo rapidamente nao sei o que mais. Até hoje nao entendo o ocorrido, e como eu estava dormindo no momento do bizarro acontecimento, me pergunto se ela nao estava sob influência de calmantes vencidos ou algum entorpecente. Ela nao quis ir no hospital, apesar da quantidade de sangue e da profundidade do corte. Na manha apos o acidente, apenas vi uma calça ensanguentada que parecia farda de açougueiro. Sim, o estilete perfurou a calça e apunhalou (ou estiletou?) a sua perna. Infelizmente nao aprendemos como é o processo de atendimento e tratamento para levar pontos. Talvez ela tenha cansado deste novo passatempo hospitalar. Caso alguém deseje informaçoes, posso forjar outro acidente com cortes para finalmente aprendermos os procedimentos neste caso.

Aos que vierem para a França, nao esqueçam de fazer a mutuelle. Vejam o triste caso de minha esposa, que vivia longe dos hospitais quando morava no Brasil, e hoje as recepcionistas de quase todos os hospitais de Grenoble jà a conhecem pelo primeiro nome.

PS: Percebi que frequentemente digo "minha esposa" e raramente o nome dela. Nao necessariamente todos que leem este blog a conhecem. O blog persô dela é aqui. E o dos doces que ela faz aqui.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A maior avenida em linha reta

Levanto uma polêmica para todos os pernambucanos, sobre a legitimidade da Av. Caxangà como a maior avenida em linha reta da América Latina, com 6,2 km de extensao.


Talvez este seja um assunto muito delicado visto que a Caxangà é um dos célebres sìmbolos da megalomania pernambucana seguindo o padrao maior XXX do(a) [Nordeste|Brasil|América Latina|mundo].


No México, existe uma avenida chamada Insurgentes, que nao é totalmente retilinea, mas ha um trecho de quase 10 km em linha reta, num total de quase 29km de extensao, sendo considerada a maior do mundo. E agora? A Av. Caxangà foi reduzida à mera maior avenida em linha reta da América do Sul? Nem isso, pois os fatos sao piores ainda. Se verificarmos no wikipedia, até no Brasil jà tem coisa maior:
A mais extensa via urbana em linha reta do Brasil, a Avenida Teotônio Segurado (ou Eixão) encontra-se em Palmas no Tocantins e possui 14,86 quilômetros de extensão total, sendo 12,54 quilômetros em linha reta

E agora, Pernambuco? O governo precisa fazer algo a respeito disso: ou providenciar uma extensao, ou entao avisar a todo povo pernambucano que esse tìtulo nao existe ja faz tempo. Alguém se habilita a atualizar isso na pàgina da Av. Caxangà no wikipedia? Tenho medo de alterar e sofrer represalias.


Talvez haja uma soluçao para manter o tìtulo: podemos forçar a barradizendo que é a maior avenida completamente retilinea da América Latina.


Maiores avenida retilineas: megalomania originaria da França?

Em Grenoble tem o Cours Jean Jaurès (foto acima, que seria o motivo inicial desse post), que é a maior avenida em linha reta da Europa, com 8 km. Estou na cidade certa!! Aqui é perfeito para recifenses.

Vejam fotos e informaçoes da Jean Jaurès/Cours de la Libération aqui e aqui.

Tem uma historia (talvez lenda urbana grenobloise, nao sei) que diz que forçaram a avenida a ser divida em pedaços com nomes diferentes de modo que a Champs Elysée de Paris continuasse sendo a maior da França. Nao pesquisei a fundo, mas nao acho que esta ultima seja a maior.

Essa megalomania talvez seja algo vindo da França, pois segundo a entrada no wikipedia tem dedo de engenheiro francês na Av. Caxangà. Ta explicado entao.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Escrever a tese

A hora de escrever a tese (ou dissertaçao, se preferir este termo) chegou. E de criar traumas e frustraçoes também. Tem um verbo em francês que ja começo a usar bastante para descrever meu estado: paniquer. Acho que nao precisa traduzir né?

Achava que todo o drama que eu tinha ouvido falar era lenda, mas agora começo a viver isso, e olha que nao faz nem uma semana que comecei.

A primeira frustraçao começa com o formato usado para a redaçao: MS-Word. Eu queria usar LaTex, mas duas razoes me levaram a usar Word:
  1. Orientador faz comentarios direto no arquivo Word, usando o controle de versoes de documento e o recurso de comentarios. Com LaTex ele nao faria e nao iria imprimir o documento para escrever os comentarios.
  2. Curva de aprendizado. Meu uso de LaTex ficou limitado à escrita de alguns artigos. Fazer um documento mais elaborado iria necessitar de mais aprendizado.
Escrevendo a dissertaçao 15 minutos por dia
Ja vinha lendo um livro para me conscientizar do que estava por vir, e para ajudar na motivaçao para escrever. A autora é uma psicologa clinica que ajuda 'escritores travados', e ja trabalhou com gente de Harvard e nao sei mais de onde. O titulo fala em escrever 15 minutos por dia, mas isso é apenas no inicio, para se habituar e tomar gosto pela escrita. O ideal é trabalhar diariamente horas a fio escrevendo a tese. O livro ainda trata de algumas problemas delicados, tais como incompreensao por parte de esposo(a) e filhos(as); dificuldades de relacionamento com orientador; interrupçoes externas (ex: vida pessoal) e internas (ex: mental).

Diferentes técnicas de escrita sao sugeridas no livro, mas eu estou travado pois ainda nao sei a sequência precisa dos topicos a escrever em minha tese. Ja escrevi umas 4 sequências diferentes. Ja ja mudo novamente.

Novos habitos
A outra frustraçao é o ritmo (nenhum) e a velocidade (em repouso) da escrita. Como o documento é longo, hesito em adotar uma abordagem e no meio do caminho dizer (ou ouvir) "ta uma merda, muda tudo". Pela "tradiçao" de minha equipe sao de 150 a 200 paginas, usando o espaçamento minimo entre linhas, semelhante ao formato dos textos que vemos em livros. Logo a hesitaçao leva novos habitos a se instalarem:
  • Abir o .doc da tese
  • Contemplar o cursor piscar por varios segundos com o fundo completamente branco.
  • Nenhuma idéia por onde começar.
  • Rabiscar papéis
  • Buscar na Internet varios tutoriais tipo "how to write a PhD thesis" ou "how to organize your PhD dissertation".
  • Procurar varias teses de computaçao e ver como é o formato delas, como abordam o estado da arte, como mostram as proposicoes, validacoes, etc.
  • Vir escrever neste blog
Falei essa semana com meu orientador sobre o roteiro, e ele começa a fazer perguntas sobre: o que eu quero dizer, qual a mensagem que quero passar, que aspecto do trabalho eu considero mais importante, etc, etc. Tudo isso influenciaria a organizaçao do capitulo de estado da arte. Nao sei se uma reuniao semanal vai ajudar o progresso.

Na configuraçao atual da minha rotina, demoro uns dois meses para escrever (bem) um artigo de 16 paginas. Escrever qualquer artigo porcaria com uma semana acho que da pra escrever, mas a qualidade seria baixa. Tudo bem que o conteudo de artigos é bem denso, e geralmente tenta-se dizer bastante coisa em poucas paginas. Entretanto, se eu transferir esta velocidade de escrita de paper para a redaçao da dissertaçao, devo levar mais de um ano para terminar. Meu prazo é até fim de maio, para poder defender em setembro, ou no maximo, meados de junho pra defender no inicio de outubro. Preciso acelerar o ritmo.

Bom, apenas comecei ha alguns dias e acredito (na verdade conto com isso) que o ritmo de escrita chegarà. Vou voltar a tentar escrever e quando o panico/desespero/angustia/agonia/qualquer_outro_sentimento_parecido chegar, fujo e vou dormir.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Cançoes infantis: medo e violência

Ja falei aqui de mùsicas infantis que "grudam" no cérebro. Como pais, eu e minha esposa temos que aprender novas musicas infantis assim como resgatar de nossa memòria mùsicas que aprendemos como criança, mas nem toda mùsica é necessariamente educativa.

Maltratando animais
Eu lembro que minha mae cantava duas cançoes francesas que ela tinha aprendido na escola: alouette e frère Jacques. Na época dela, as escolas brasileiras ensinavam como lìngua estrangeira o francês e o latim. Recentemente estava procurando no YouTube a primeira, alouette, que eu ja nao lembrava mais como era. A letra é violenta, apesar de ser uma cançao infantil com ritmo bem alegre. Fala de um passarinho e de arrancar penas de sua asa, das costas, da cabeça, o bico e nao sei o que mais. Essa é uma daquelas cançoes pra memorizar uma sequência de coisas e repeti-las, aumentando o conjunto de coisas a cada repetiçao dos versos da cançao. Nesse caso, sao as partes que serao depenadas. E no final, certamente o passarinho morre, mas ninguém fala disso.

Um dos links relacionados no YouTube leva para outra cançao, chamada Souris verte. Essa também maltrata animais. Fala de um ratinho verde, e de uns senhores que mandam mergulhar o rato no oleo e depois na àgua, para que depois o ratinho vire um caracol... O pobre do rato corre é o risco de morrer afogado, isso sim.

Cançoes infantis no Brasil
Eu jà tinha lido sobre isso uma vez no Brasil, numa reportagem que falava das cançoes infantis brasileiras que aterrorizam crianças. Cançoes tipo

"boi, boi, boi, boi da cara preta,
pega esse menino que tem medo de careta"

e também

"nana neném que a Cuca vem pegar" ajudam a criança a entrar em pânico ao invés de dormir. A idéia de ameaça é clara: dorme logo criança, senao o bicho vai te pegar!

E essa:
"Marcha soldado cabeça de papel,
se nao marchar direito vai preso no quartel"

Mensagem de puniçao. Faz o negòcio direito, senao vai preso.

"Atirei o pau no gato" ficaria popular se fosse traduzido para o francês, visto o gosto pela crueldade com animais nas duas cançoes francesas mencionadas anteriormente.

"Como pode o peixe vivo viver fora da àgua fria" darà idéias para crianças maltratarem peixes, igual a mim que matava betas asfixiadas tirando-as da agua. Tentava ver quanto tempo a pobre beta sobreviveria "fora da agua fria". Certamente influência desta infame cançao.

Além do medo e do maltrato a animais, algumas mùsicas estimulam a promiscuidade feminina desde criança como na que diz "sete e sete sao catorze, vezes sete vite e um, tenho sete namorados mas nao gosto de nenhum". Caramba! Sete namorados! Sem comentàrios.

Tem outra que, ao meu ver, é mensagem subliminar para estimular namoro escondido: "papagaio louro do bico dourado, leva essa cartinha pro meu namorado". Como assim levar cartinha? Porque a menina nao leva? Ta namorando escondido é?

Pois é, musicas bonitinhas com mensagens subliminares. Se alguém aì souber de alguma outra cançao infantil que pregue violência, medo ou qualquer outro efeito colateral nocivo, mencione-a nos comentarios. Quem sabe assim podemos catalogar essas cançoes "do mal" e criar versoes politicamente tais como "nao atire o pau no gato".

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

"Vergonha" de ser nordestino


Uma febre de xenofobia que se alastrou no Brasil logo apòs as eleiçoes (quem esta por fora do ocorrido, veja aqui). Eleitores de José Serra culpam os eleitores do Nordeste pela eleiçao de Dilma Rousseff.

Calculos infelizes
Segundo o site do TSE, os eleitores do Nordeste representam 27% do total do paìs. Acho que o problema foi desuniao da elite econômica, visto que os pobretoes miseraveis do Nordeste nao conseguiriam eleger Dilma sozinhos. Logo, nas outras regioes ha "traidores" que votaram em Dilma.

Vergonha
Neste momento, estou com muita vergonha de ser nordestino. Todas essas verdades doem muito. Tenho pensado no suicìdio, pois com um nordestino a menos o Brasil ficaria melhor. Ainda bem que estou na França e esse sentimento é atenuado, visto que aqui sou mais um estrangeiro oriundo de paìs pobre (pode-se também dizer "em vias de desenvolvimento") e ninguém liga pra o fato de qual regiao de meu paìs eu venho. Sou apenas brasileiro, se é que os xenòfobos me permitem ser. Eu posso provar. Tenho passaporte brasileiro e tudo.

Eu tenho vergonha de ser nordestino por sermos burros. Mas sempre tem gente dando força pra nòs. Acho bacana o que fazem no Rio e em SP dando emprego a nordestinos conseguem contar piada nos programas de TV. Em SP, onde tem mais gente inteligente, até deram emprego de deputado para um palhaço nordestino. Hà 8 anos elegeram Lula como presidente, que chegou em SP como retirante. Por consideraçao o mundo todo até chama ele de inteligente, e o cara ja ganhou até titulo de doutor honoris causa.

Somos burros e nao conseguimos fazer avioes no Nordeste. O maximo que saiu foi uma fabrica de jipes, que até participou do Paris-Dakar algumas vezes, chegando a ser vice-campeao em sua categoria. A Ford comprou a fabrica em 2006, pois nordestino nao tem direito a ter nem fazer coisa boa. E se for pra mexer com computador, qualquer burrao consegue, nao é verdade? Ainda bem, pois com isso Recife virou polo de informàtica com um bando de jumento programando. Teve até obra de caridade da Motorola pra montar centro mundial de testes em Recife. A maior rede de supermercados do Nordeste dava vergonha, pois era nordestina. Eles mesmo diziam que tinham vergonha de serem nordestinos. Agora dà orgulho, pois é dos gringos do Walmart.

A pobreza cultural é de dar vergonha. Apenas alguns poucos ritmos como caboclinho, forrò, baiao, côco, xaxado, axé, frevo, maracatu, ciranda, bumba-meu-boi, e recentemente apareceu um tal de manguebeat que Chico Science e Naçao Zumbi levaram para o Brasil. O artesanato daqui nao tem identidade pròpria, tipo as rendas do Cearà ou os bonecos de mestre Vitalino. Pra dar uma forcinha ao nordestinos, muita gente comprou livros de Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Gonçalves Dias, José de Alencar, José Lins do Rego, Ariano Suassuna e outros burroes nordestinos.

Nossa regiao nao dispoe de tantas terras férteis. Isso dificulta o agronegocio que traz tanto dinheiro para regioes como Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Mas ainda tem gente insistindo em plantar no sertao. E o povo ainda implica com o projeto de transposiçao de àguas do Sao Francisco.

Eu tenho vergonha de ser nordestino por falarmos feio. Eu queria falar bonito igual ao povo da novela. Tem atriz pernambucana que foi pra Globo e aprendeu a falar "gentxe" ao invés de gente. O danado é que o sotaque que o povo de là faz quando a novela se passa no Nordeste eu nunca vi em lugar nenhum. Acho que é do décimo estado nordestino.

Pedimos desculpa pela estética de nossas cabeças chatas incomodar tanto. Os europeus que vieram para o Nordeste se misturaram demais com ìndios e escravos africanos ao longo dos anos, aì deu nisso: um povo bem brasileiro. Ja a leva mais recente de imigrantes camponeses europeus que vieram ser explorados em lavouras de café ou que embarcaram com promessas de lindas terras na América, deu uma injeçao de beleza caucasiana na populaçao. Imagino que esse pessoal de sobrenome importado (tipo Prickenstein ou Piriguetti) nao acha que tem sangue nobre. A maior parte deles tem origem tao pobretona quanto nòs, os cabeças chata da Silva ou dos Santos.

Bom, vou terminando as vergonhas por aqui, pois ainda tem tantas outras coisas pra me envergonhar. A grande revolta dos que desejam o mal nordestino é o nosso progresso. Talvez os grandes investimentos feitos recentemente no Nordeste revolte os xenòfobos. Numa sociedade justa o dinheiro vai dos ricos para os pobres para equilibrar a balança. Até a Suiça tem regioes consideradas mais "pobres". Là a regiao italiana suga recursos gerados pelas Suiças alema e francesa. Na Bélgica a parte francesa (Wallonia) "mama" recursos de impostos vindo da regiao de Bruxelas e da parte neerlandesa (Flandres).

O problema é que se matarem muito nordestino, como foi pedido por alguns, o Brasil perde muita força de trabalho. Nordestinos viajaram pra Amazonia pra tirar leite de pau na época àurea da borracha, comeram bastante poeira construindo Brasìlia, fizeram e fazem parte da força laboral dos grandes pòlos industriais do Sudeste. Além dos nordestinos burros que trabalham no mercado de serviços das cidades mais ricas do paìs, tem também os mais burros, que trabalham de babà, faxineiro(a), pedreiro, encanador, eletricista, cozinheiro, etc. Espero que ninguém leve os pedidos a sério e comece com a matança. Mas se matarem alguém por engano, vao justificar: "eu pensei que fosse um nordestino"

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

15 assinaturas para 3 anos de doutorado

Dà-lhe burocracia!
Desde que comecei o doutorado assino um monte de papéis diferentes por ano para poder receber os eurinhos mensais e comprar a baguette e o camembert de cada dia. Explico as razoes da demasiada papelada.
Estamos na burocràtica França. Como dizem por aqui, pourquoi faire simple quand on peut faire compliqué? (algo como "por quê fazer o simples quando se pode complicar"). A universidade segue à risca esse ditado. Como o visto de permanência temporaria (titre de séjour) demora um pouquinho a sair, isso afeta tudo que é contrato que tenho que assinar. Normalmente se recebe da prefeitura um documento provisorio, chamado récépissé, e até o titre de séjour sair tudo fica provisòrio (pelo menos para o ano letivo em curso).
Apesar de eu ter uma bolsa de três anos, a renovaçao dela é anual, assim como o visto. Entao vamos à sequência:
  1. A escola doutoral de informatica (MSTII) me emite uma attestation d'accueil, que me dà direito à um titre de séjour scientifique
  2. Assino e levo o documento para o departamento administrativo da universidade (UJF)
  3. Encaminham para o presidente (reitor) da universidade
  4. O reitor assina
  5. Sou notificado que o documento esta assinado
  6. Busco a bendita attestation d'accueil
  7. Levo-a até a prefeitura, junto com a papelada de praxe para renovar o titre séjour
  8. Aguardo duas semanas para o récépissé chegar pelo correio
  9. Levo uma còpia do récépissé para a MSTII
  10. Emitem um Procès verbal (PV) d'installation com a validade do récépissé (cerca de 2 meses)
  11. Assino e levo para o administrativo da UJF

Pronto, esta parcialmente resolvido o problema. Como sou monitor, ainda tenho outro contrato em paralelo com o Ensimag/Grenoble INP. Ai vao os 3 passos:
  1. Levo copia do récépissé para o administrativo da Ensimag
  2. Emitem meu PV temporario
  3. Sou notificado que o documento esta pronto e vou assinar
Pronto. Bem mais simples. Isso garante o resto da merreca mensal. Com o "faz-me rir" garantido por 2 meses, o titre de séjour chega nesse meio tempo. Volto a fazer a grande jornada maçante:
  1. Levo uma còpia do titre de séjour para a MSTII
  2. Emitem o Procès verbal (PV) d'installation definitivo (para o resto do ano letivo)
  3. O diretor da MSTII assina
  4. Assino e levo para o administrativo da UJF
Em paralelo, repito os três passos com a Ensimag:
  1. Levo copia do titre de séjour para o administrativo da Ensimag
  2. Emitem meu PV definitivo para o ano letivo
  3. Sou notificado que o documento esta pronto e vou assinar
Resumindo, 5 documentos que tenho que assinar por ano com a UJF e Ensimag para poder receber os salarios. Serà que precisaria de tanto?