quarta-feira, 20 de abril de 2011

Cançoes Infantis II

Acho que uma forma legal de curtir os filhos é virar criança de novo é brincar, rir, correr, cantar, se sujar, etc. Resumindo, virar criança com eles de novo. E falando em cantar, o fato de estar na França nos esta fazendo aprender um bocado de musica infantil que cantam aqui.

Ja falei em outra ocasiao aqui sobre cançoes infanti, e temos aprendido muitas musicas na creche onde fica nossa filha. Por sinal, estou editando um post sobre o sistema das creches aqui na França, mas ele ficara hibernando por algum tempo enquanto escrevo a tese.

Além da creche, nos servimos também do youtube pra ajudar a explorar outras musicas do "cancioneiro francês". Ontem minha esposa conseguiu achar uma cançao numa lingua "estranha" que cantam muito na creche, e que aprendemos "por osmose". Por sinal nossa filha adora e ja canta algumas palavras elaboradas como olelê e olalà. Pensavamos que era arabe (apesar dos sons das palavras nao terem cara de arabe) devido à forte presença de magrebinos aqui, mas nunca perguntamos de onde era. Na verdade é do Congo. Em encruzilhadas culturais como os paises da Europa é normal entrar em contato com culturas de diversos paises, mas nao achei que chegassem assim a tal ponto de incorporar na cultura infantil uma musica em um idioma africano. Muito legal isso. Na provincia de onde viemos o intercambio cultural que rola é com Paraiba e Alagoas :)

Aqui o link da musica para quem quiser ouvir: olélé moliba makasï.

PS: Eu so ia postar uma frase e o link. Preciso desse fluxo de palavras tecladas por minuto na minha tese.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Albergues

Este post esta(va) em modo ediçao ha dois anos. Reduzi o texto e ignorei detalhes que faltavam, senao nao sai nunca.

As coisas mais caras numa viagem, ao meu ver, sao o transporte (as passagens de aviao, principalmente) e hospedagem. Hospedagem é algo que pode inviabilizar viagens, dependendo do nivel de exigencia da pessoa. O meu é baixo: cama sem pulgas nem percevejos, banheiro (com chuveiro, sanitario e pia, por favor!), além de algo para manter o sono confortavel: aquecimento + cobertas quando estiver frio, ou ventilador/ar condicionado quando estiver quente. Nao ligo se o local nao tiver café da manha (ou pequeno-almoço, para os lusitanos). Nem ligo pra wi-fi, mas se tiver é bem vindo, claro. Nao estou brincando. Eu ja até viajei de Manaus a Belém, de barco e dormindo em rede. Detalhes aqui.

Ja a minha esposa tem niveis mais altos de exigência: cama confortavel, banheiro limpo, toalhas, roupa de cama branquinha, quarto sem cheiro de cigarro, bla bla bla. Nao sei se ela aguentaria a viagem do barco apesar de eu ter achado tranquilo o nivel de conforto, pois gosto muito de dormir em rede. Mas, voltando ao negocio da hospedagem, existe uma palavra que causa caras e bocas em brasileiros quando falo em uma otima e barata opçao de hospedagem na Europa e paises desenvolvidos em geral: ALBERGUES!
O quê? Albergue? Mas isso é coisa de mendigo, pobretao. Albergue é sujo e nojento.
Nao, senhor(a). Albergues (hostels) sao opçoes baratas de hospedagem, onde você possivelmente tera que dividir o quarto com outras pessoas, que é a principal desvantagem ao meu ver. Entretanto, se você viaja sozinho(a) é uma oportunidade de conhecer pessoas que estao visitando a cidade e trocar idéias sobre lugares onde visitar e de repente arrumar companhia para passear. Além disso, você tem momentos de convivência gente de outros lugares. O perfil das pessoas que fica em albergues é de gente jovem, de 18 a 30 (acabo de me excluir. Isso me torna velho?!), e a atmosfera desses lugares condiz com a faixa etaria.

Pros x contras
Ao meu ver, as principais desvantagens (que conforme o paragrafo acima, podem tornar-se vantagens)
- Divisao de area comum (banheiro, cozinha, mesas) com outras pessoas
- Risco, geralmente pequeno, de mexerem nas tuas coisas caso nao disponibilizem armarios com chave.

Algumas vantagens
- Preço baixo. Albergue varia, em média, de 15 a 25 euros por pessoa. Depende do pais, localizaçao, etc. Hotel é dificil achar diaria por menos 40 euros. Mas isso também varia de um pais para outro.
- Cozinha disponivel para preparar/aquecer sua propria refeiçao
- Em sua grande maioria sao instalaçoes modernas e limpas
- Geralmente bem localizados
- Permite economizar algumas vezes bem menos da metade do preço de uma hospedagem em hotel.
- Alguns fornecem café da manha e wi-fi gratis
- Pessoas para conversar (e dispostas a tal)

Um negocio bacana que os viajantes em casal podem fazer é procurar albergues com quarto duplo (duas camas apenas) ao invés de ficar em quartos coletivos de 4 a 8 camas. Certamente nesta ultima opçao você dividira com alguém e provavelmente ficarao separados se houver divisao de quartos homem/mulher.

Eu e minha esposa, sozinhos ou juntos, ja ficamos em varios albergues e praticamente nao temos queixa. Compilei uma breve lista de 11 cidades onde ficamos em albergues, mas alguns deles nao lembro o nome. A intençao nao é fornecer um guia de albergues, mas mostrar que estatisticamente para nos sempre valeu muito a pena o custo/beneficio:

Cingapura. Pelo que lembro foi a primeira vez que fiquei em albergue. The InnCrowd Backpackers Hostel que era muito legal. Atmosfera de mochileiros. Ar condicionado funcionava melhor na hora de dormir.
Porto - Portugal. Ficamos em um super albergue às margens do rio Douro. Quartos duplos tem vista para o rio. Acima da expectaviva.
Bruxelas - Bélgica. Fui duas vezes, uma com minha esposa e outra sem ela. Na primeira ficamos no Generation Europe, com quarto duplo e com café da manha legal. Localizaçao mais ou menos. Na segunda vez fiquei no 2GO4 Quality Hostel, com otima localizaçao, mas o albergue é um predio antigo (talvez fosse um hotel antigamente) reformado que ficou meio estranho como albergue.
Parma - Itàlia. Tudo novinho e ainda oferecem emprestimo (gratis!) de bicicleta.
Genebra, Lausanne e Zurich - Suiça. Tudo muito caro na Suiça, até albergue. Em Genebra e Lausanne eles dao direito a usar transporte publico de graça durante sua estadia (assim como qualquer outro hotel de la daria).
New York - EUA. Afastado da cidade, mas com infra boa.
Grenoble, Lyon e Paris - França. Fiquei no de Grenoble quando cheguei, meio afastado do centro mas tudo novo. Minha esposa foi nos outros dois com uma amiga que veio visita-la. Se nao me engano, apenas ouvi queixa do de Lyon.

Hotel às vezes sai mais barato
Mas é bom ficar de olho, pois às vezes hotel sai mais barato. Sempre olho nos sites hrs.com e hotels.com antes de fazer reservas. Por exemplo, se o quarto do hostel ta 18 euros/pessoa, o casal pagaria 36. Encontrando hotel por 40 quarto duplo, obviamente é melhor pagar a diferença. Em Nice, por exemplo, achamos pelo hrs.com um hotel de 35 euros quarto duplo com café da manha. Era inverno. Se fosse verao provavelmente nao seria menos de 50.

Hotel sem banheiro
Atençao às ofertas rede Formule 1, da Accor, é bem em conta mas normalmente fica afastado dos centros e no que ficamos em Paris NAO TINHA BANHEIRO. Era no corredor, banheiro coletivo, tipo albergue. Meu irmao ficou em um hotel dessa rede em Sao Paulo e falou que tinha banheiro. Deve ser lance de francês, provavelmente. Achei que foi uma roubada. Nesse caso, melhor hostel mesmo.


Espero ter clareado a imagem dos albergues para os que tem preconceito. Nao sei dizer como é no Brasil, pois nunca fiquei em um la. Mas, por onde passei sempre ficou boa impressao. Apesar de todas as vantagen$, agora com bebê a historia é outra. Albergue ja era. Aproveitem os que ainda nao tem filhos, pois viajar se hospedando em albergue ajuda a economizar uma grana boa que pode ser convertida em lazer ou alguma compra na viagem!

Mais informaçoes em:
Hostelling International www.hihostels.com
Reservas/buscas de hostels www.hostels.com

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Magnésio na agua

Advertência: Se você é daquele(a) que nao olha para tras depois que vai ao banheiro, pare aqui e nao leia o resto. O post esta relacionado com *merda*, no sentido literal.

Tento "manter o nivel" neste blog, mas estas informaçoes sao uteis para brasileiros que vivem na Europa ou que vao viajar para la. Vamos à merda entao:

Depois de passar duas semanas no Brasil meu intestino esta com dificuldades a retornar ao funcionamento normal. Nenhum problema la, pelo contrario, o negocio é aqui em Grenoble. Eu sou reloginho. Todo dia de manha bato o ponto la no Sr. Bocao e faço meu deposito. Mas a consistência ta avariada. Patezinho, sabe? Depois de um tempo de adaptaçao melhora, mas nunca fica igual a como é no Brasil. Desde que viemos morar aqui, ha quase 4 anos, ficou sempre assim. O meu organismo tem um intervalo fixo de 24 horas entre as visitas sentando ao banheiro. Hoje em dia preciso de mais tempo que isso "cozinhando" pra "obra" ficar no ponto. Lendo num site brasileiro sobre viagens, vi uma pessoa falando que teve um grande desarranjo intestinal por varios dias na Grécia e achava que era a comida. Depois descobriu que os indices de magnésio na agua de la sao altissimos em relaçao à agua consumida no Brasil. Magnésio em certas doses funciona como laxante. Explicado, nao é?

Em Grenoble a agua é considerada de alta qualidade e nao precisa de tratamento, apenas controle continuo da qualidade. Aconselham até para fazer mamadeira de bebê com agua direto da torneira. Ela é coletada no subterraneo no lençol freatico do rio Drac, que passa por aqui e provavelmente deve ser agua vinda dos Alpes, regiao de onde também se extrai a mundialmente famosa agua Evian (mas nao tao famosa quanto a Perrier). Além do magnésio (nao vi os niveis, mas faço a inferência graças ao intestino), a agua de Grenoble é rica calcario também. Pra ter idéia de quanto calcario tem, quando fervemos as mamadeiras de nossa filha elas ficam cobertas de um po branco depois de secarem. Portanto, ao vir à Europa (ou se ja esta nela), antes de culpar a comida por qualquer funcionamento incorreto do intestino, procure saber que tipo de agua esta tomando.

PS: Tentei até procurar o bendito site onde li isso, mas nem sinal. Esse link aqui fala da agua de Bonito, MS mas serve como referência sobre o magnésio e seus efeitos no intestino.

quarta-feira, 23 de março de 2011

De visita e assaltado

Estou em Porto de Galinhas, Pernambuco (meu estado natal!), como visitante para participar de um congresso que vai de 21 a 25 de março. Vou levar de lembrança na minha memoria um assalto à mao armada, que descrevo aqui.

A fome
Na noite da terça houve uma sessao de exibiçao de posters, seguida de uma apresentaçao de ritmos pernambucanos e logo apos algumas bebidas e salgadinhos. Nao deu pra encher a barriga. Eu e mais um pequeno bando de esfomeados decidiu ir ao centro de Porto de Galinhas para comer algo. Fomos pela praia, caminhando.

A abordagem
Por volta das 21hrs, depois de algo entre 5 e 10 minutos de caminhada, dois caras encapuzados com as camisas amarradas na cabeça passam correndo ao nosso lado mostrando uma arma e gritando para entregarmos o nosso dinheiro. Dois dos nossos colegas, um brasileiro e um francês, que estavam um pouco mais à frente nao perceberam e continuaram caminhando. O revolver era aparentemente velho, mas eu nao quis arriscar nem perguntar a ele se o revolver funcionava. Obedeci às ordens de ir ao chao, e como um babaca com as maos para cima fiquei de joelhos na areia.

O passo a passo
Anunciei cada passo como orienta a polìcia."Estou tirando a carteira aqui do bolso de tras", "estou tirando o relogio". O suiço que estava conosco perdeu 150 reais, e um iPhone. Os dois colombianos que "fechavam" o grupo tiveram cada um cerca de 100 reais roubados, e um deles entregou o relogio. Eles foram espertos (ou loucos) o suficiente de guardar os seus celulares. O ladrao ainda chegou a apalpar o bolso de um deles, mas era o bolso vazio. Ainda bem.
Minha carteira tinha cartao de crédito, cartao de senhas do Internet Banking, carteira de motorista do Brasil, carteira de estudante da França e miseros 3 reais, e um bocado de papel inutil que nao sei porque guardo na carteira.

A delegacia
Voltamos para o hotel do congresso, e combinamos de ir na delegacia. Corri para a pousada onde eu estava, liguei para cancelar o cartao de crédito e o cartao de senhas do Internet banking. Em seguida fomos à delegacia fazer o boletim de ocorrência (BO).

Chegando la, um policial nos atendeu muito bem, mas nao me convenceu de que era policial. Ele nos culpou pelo assalto, dizendo que deveriamos evitar aquele local trecho.
Perguntei se sao feitas rondas ostensivas da Policia Militar na praia para inibir assaltos. Ele se isentou da culpa e disse que nao tem nada a ver com isso pois é da Policia Civil. Também falou que nao podem ir atras dos ladroes pois é tarefa da PM. Nos falou para ligar para a PM, mas nao de la da delegacia. Que fossemos ligar de outro local.

Acusou imigrantes baianos e mineiros de terem aumentado a criminalidade. Disse que eles viem trabalhar nas empresas que giram em torno do porto de SUAPE, que esta em plena expansao. O pessoal complementa a renda roubando à noite, e no outro dia vao trabalhar.

Eu sabia que ir à delegacia nao nos faria reaver o dinheiro ou os pertences, mas eu estava preocupado em acontecer algum tipo de fraude com meu CPF que esta na CNH roubada. Imagino que o BO pode me livrar de problemas caso isso venha a acontecer.

Otima impressao as vitimas estrangeiras levarao do Brasil.

E o detalhe desta noite: nao jantei e fui dormir com fome.

Um sinal?
Podemos fantasiar fatos da vida e interpreta-los como "sinais". Seria este um sinal avisando para desistir de voltar para o Brasil e ficar na França? Ou seria um alerta dizendo "fica esperto que é isso que ta te esperando"?

Acho que foi apenas uma casualidade. Ja pensou? Ficar saindo de bobeira assim. Nao pode. Quando eu vier morar aqui de vez com a familia, vou tomar precauçoes:
-Arrumar emprego estilho home office, assim evito sair de casa e ser assaltado no transito.
-Contratar professora particular para nao ter que levar minha filha na escola, e correr o risco de ser assaltado.
-Pagar TV por assinatura que tem pay per view, entao nao preciso ir ao cinema nem na locadora. Assim evito de ser assaltado.
-Gradear o apartamento, pra evitar de ladroes entrarem pelas janelas
-Usar a Internet pra efetuar pagamentos de boletos, comprar coisas e pedir para entregarem em casa, até mesmo compras de supermercado. Nao quero correr o risco de sair e ser assaltado.
-Utilizar o Skype para me reunir com a familia ou para "tomar uma " virtualmente com os amigos. Afinal, em casa o risco é bem menor.

Posso até tentar sair de casa algumas vezes, mas antes disso preciso me preparar: vou juntar dinheiro e comprar um carro blindado, pois so assim conseguirei me sentir seguro no trânsito. E se eu sair à noite, vou avançar sinais vermelhos com cuidado, como a policia aconselha.

Engraçado como a policia ajuda ensinando a cometer infraçoes com cautela. Também ensinam a como ser vitima de assalto. Aprendi direitinho e nao aconteceu nada comigo quando fui assaltado. A policia ja nao precisa combater o crime, eles apenas nos orientam a lidar com ele. E se acontece algo, ele tentam nos conformar de que é assim mesmo e que somos todos impotentes em relaçao à isso. Hoje em dia eles tem tempo de fazer outras coisas mais uteis para seus interesses pessoais. Mas acho que eles cansaram de "policiar", afinal, policial também é cidadao e pode se indignar e cruzar os braços. Indignaçao com a falta de perspectiva dos menos favorecidos, que como alternativa para ganhar a vida vao roubar. Deixa os pobres coitados ganhar a vida, né? Afinal, nao conseguiram fazer nada por eles. Mas pensando bem, se for verdade o negocio dos trabalhadores que trabalham de dia e roubam de noite, o negocio nao tem jeito. O problema é safadeza mesmo.

Mas, o negocio é entrar na onda e se conformar. Estou ansioso para voltar e nao vejo a hora de morar na minha prisao domiciliar. Espero que ninguém me assalte por là.

segunda-feira, 7 de março de 2011

Merde

Isso mesmo. Merde!
Essa é uma palavra especial na lingua francesa. Existe todo um vocabulario relacionado com a palavra merda.
Ouvi neste ultimo sabado um funcionario falando pro outro no Carrefour "Eles nao podem ficar 30 minutos sem você? Vai là, que eles se 'demerdam'" (ils se demerdent, em francês). Eu comecei a rir sozinho, pois eu gosto dessas palavras com o radical "merda" no francês. Lembrei de um bocado de palavras merdais, e vi que realmente ha um vocabulario vasto. A expressividade é imensa, além de divertida. Nao conheço tanta variedade "merdal" em português. Seguem exemplos (o tilde significando equivalência):
  • Se demerder: Se virar, "desenrolar a bronca". Démerde-toi ~ te vira.
  • Emmerder: Incomodar, encher o saco. Meu orientador m'emmerde com tanto pedido nada a ver que me faz.
  • Emmerdeur: Alguém que enche o saco. Esse cara é um emmerdeur.
  • Merdique: Algo de baixa qualidade. O cara fez uma tese merdique porque o orientador nao ajudou.
  • Merdier: Bronca. Cu de boi. Tô num merdier completo com tanta coisa pra fazer e os prazos estourando.
Apesar do radical nao ser merde, o verbo chier tem uma ligaçao importante com merda.
  • Faire chier: Ao pé da letra seria "fazer cagar". Denomina algo chato. Ter que testar todos os projetos dos estudantes pra poder dar nota é uma coisa que me fait chier. Tu fais chier ~ Tu enches o saco.
  • Chiant: Ao pé da letra seria "cagante". Coisa chata. Esse negocio é chiant. Putain! T'es vraiment chiant ~ Puta que pariu! Tu és chato pra caralho.
Merda pode vir na forma de verbo também:
  • T'as tout merdé ~ "tu cagou tudo" no sentido de fazer besteira.
Como no português, a palavra em merda em si é bem versatil para descrever varias situaçoes
  • Je ne peux pas travailler avec ce truc de merde ~ Nao da pra trabalhar com esta merda (algo de ma qualidade).
  • T'es dans la merde ~ Estas na merda, estas fodido.
  • C'est de la merde ce truc là ~ Esse bagulho aqui é uma merda.
Bom, vou concluindo por aqui esse post de merda e em seguida volto a escrever minha tese, senao eu tô na merda.

sábado, 5 de março de 2011

Bebês e o frio


Estamos no fim do inverno aqui no hemisfério norte. Nessa época a temperatura, aqui em Grenoble, fica em média entre 0°C e 10°C a maior parte do tempo. Eu (e boa parte das pessoas) sempre ando com saquinho de lenços no bolso pois tenho coriza durante todo o inverno. Doenças respiratorias como gripes, resfriados, bronquite, entre outras, sao muito comuns durante o inverno, inclusive nas crianças. Existe sempre um grande estado de alerta
em torno da bronquiolite, que afeta muitos bebês de até 3 anos.

Nossa filha, hoje com quase 14 meses, começou a ir para a creche desde setembro ultimo, e se contamina ainda mais com diversos tipos de microbios. Mamae e papai aqui sofrem junto, e estao sempre adoecendo "solidariamente". Com pouco tempo de vida, e graças ao Sr. Inverno, minha filha tem uma cesta com mais de uma duzia de remédios pra doenças deste gênero. Falei em outro post sobre a otite que ela teve em dezembro.

Talvez o pessoal do Sul do Brasil, e até mesmo do Sudeste, esteja acostumado com tudo isso, pois os invernos là sao mais rigorosos que o Nordeste, onde apenas chove e faz "frio" de 23°C no litoral. Pelo menos para nos, animais tropicais criados no calor escaldante, algumas coisas das coisas a seguir sao bastante curiosas:
  • Vitamina D: Isso eu aprendi na matéria de Ciências, na escola primaria. Para estimular o desenvolvimento osséo e evitar raquitismo precisa-se dar vitamina D aos bebês. Uma alternativa é dar banho de sol no bebê quando os raios UV ainda nao estao tao intensos (inicio da manha ou fim da tarde). Os raios solares ativam nao sei o que no organismo, e a criança nao precisa de vitamina D. Foi assim que fazem na minha terra, e ninguém precisa de vitamina D. Mas se estiver muito frio, o bebê tera muita roupa e nao receberà os raios solares. E agora? Ja respondi, né? Taca vitamina D na criança. Minha filha toma vitamina D desde que nasceu. Apenas teve uma pausa de uns 5 meses quando o clima esquentou.
  • Banho: Assunto complicado para discutir com europeus. Afinal, o habito do banho diario é coisa de americanos (do norte, central e do sul). Herdamos isso dos indigenas.
    Nosso bebê apresentou eczemas. Existem inumeras causas de eczemas, mas nossa pediatra perguntou sobre os habitos de banho do bebê. Conselhos
    1. Quantidade. Minha esposa falou que eram dois ao dia. A pediatra arregalou os olhos e disse que estava errado. Talvez fosse costume de nosso pais de origem devido ao calor, mas no inverno deveriamos reduzir a quantidade para no maximo, um por dia. Ao tomar banho removemos as secreçoes da pele que servem para protegê-la. No calor, a secreçao é mais intensa que no inverno. Logo, tomar muito banho no inverno deixa a pele desprotegida visto que se transpira menos.
    2. Temperatura. Deixar a agua em torno de 36°C ou 37°C. Agua muito além disso tende a ressecar a pele e remove ainda mais a proteçao.
    3. Enxugar. Enxugar sem esfregar, pra nao tirar a bendita proteçao. Atençao para os adultos: aquele negocio de jogar a toalha por tras das costas, segurar uma ponta com a mao esquerda e outra com a direita, e em seguda puxar de um lado para o outro na intençao de enxugar o dorso, ja era. Você esta retirando o grude protetor das suas costas. Nao enxugue. Deixe a camisa tirar o excesso com o atrito do dia a dia. Mas nao use camisa branca, pra nao denunciar o grude fugitivo.
  • Temperatura ambiente: Para bebês, manter o quarto a 18°C ou 19°C. Existe aquecimento nas residências, além de muitas possuirem isolamento térmico. As janelas sao "acochadinhas" pra nao deixarem entrar o frio (nem sair o calor). Tem até janelas mais moderninhas com vidro duplo, pra manter isolamento. Enquanto ta fazendo 0°C la fora, estamos confortaveis dentro de casa com os 20°C a 23°C que geralmente fica (observem na foto do post a incompatibilidade do clima exterior e a roupa da nossa filha). Até da pra esquentar mais, so que eu acho desconfortavel pois começo a transpirar. Minha esposa acha 18°C muito frio, mas eu acho bom. Qualquer coisa, se agasalha. A casa pode até ficar na casa dos 20 durante o dia, mas o quarto onde o bebê dorme deve ter a temperatura de 18 ou 19°C. A pediatra disse que as crianças precisam sentir um pouco de frio para dormirem bem e também para que o corpo seja estimulado a produzir defesas contra doenças do inverno, bla bla bla. Além disso, os choques térmicos de entrar em lugar quente, sair pra lugar frio e vice-versa, fazem mal mesmo que estejamos agasalhados. O conselho foi, ao sai agasalhar bem, e deixar as bochechas e nariz expostos para que o corpo saiba que esta frio.
Minha esposa vive reclamando - entre outras coisas :) - da quantidade de roupas que tem que colocar na nossa filha quando ela precisa enfrentar o frio. Mas tem tudo adaptado por aqui: saco térmico para carrinhos de bebê, combinaçoes (foto abaixo). Talvez a mobilidade nao seja a ideal, mas da pra ficar quentinho (exceto aquele friozinho congelante nas bochechas e nariz). O ser humano tem uma capacidade de adaptaçao incrivel. Mesmo se o corpo nao se adapta, desenvolvemos equipamentos e técnicas para facilitar essa adaptacao. Talvez toda essa adversidade do frio fez o homem europeu exercitar essa adaptabilidade todos os anos, durante milênios, criando sociedades bem mais avançadas que as das regioes quentes do planeta. Ja li alguma vez que como nos invernos ninguém saia, pois nao tinham o que fazer (na época nao tinha TV nem Internet), eles ficavam em casa desenvolvendo suas invençoes, escrevendo, pintando, desenvolvendo praticas de sexo sado-masoquistas pra sair do tédio, etc. Que tal umas nevascas no Brasil pra ver se o povo inventa algumas coisas uteis ?

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Seguro Saùde na França IV

Falei no mês passado sobre atendimento no exterior, que é reembolsado pelo seguro saùde francês.
Repetindo o que escrevi:

Liguei e perguntei se os 205 euros seriam reembolsados 100%. Falaram que iam "estudar o dossiê" mas provavelmente seria reembolsado se apresentasse todos os documentos necessarios (recibo, boletos de viagem e formulario preenchido) visto que os gastos de urgência sao cobertos até mil euros.

Recebemos o reembolso na semana passada. Como o reembolso é feito com base nas tarifas em vigor na França, eles colocaram o valor da consulta de urgência daqui. Nao lembro se a mulher com quem falei ao telefone tinha dito 40 ou 60 euros. Ao final, com essa tarifa e o valor dos medicamentos que foram administrados no hospital, o reembolso foi quase 1/3 do valor total cobrado na Espanha.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Visita ilustre

Hoje veio aqui em casa o Conselheiro Geral do departamento de Isère, M. Denis PINOT, pedindo voto para sua reeleiçao. Nao conheço quase nada de politica na França. Nem mesmo os politicos. Sei que o presidente é Sarkozy, o primeiro ministro é Fillon, e que tem um politico chamado Le Pen que odeia estrangeiro. Depois um ou outro gato pingado.

O Monsieur PINOT se apresentou como membro do Partido Socialista (o logo, igual ao do PDT, vem daqui) anunciando quem era mas meu semblante nao se alterou. Ele tirou um jornalzinho da pasta e disse "'voici' um folheto para você saber de que se trata". Tinha a cara dele estampada no jornalzinho. Isso apenas me tirou a impressao inicial de que ele fosse mais um vendedor. Ele fez seu blabla rapidamente, e eu expliquei que achava interessante mas nao poderia votar e falei que nao era francês. Ele se fez de espantado e disse que nao parecia pois meu sotaque nao deu pra perceber isso. Mentiroso (politico, né?), pois esse semestre tive uma aluna que se queixou nesse semestre do meu sotaque que era dificil de entender algumas coisas. Ao perguntar minha nacionalidade, M. PINOT falou que o prefeito de Grenoble, Michel DESTOT tem um filho que casou com uma brasileira e que foi morar la no Brasil. Se eu nao tivesse dito pro "Seu Pinô" que ia voltar pro Brasil depois que terminar a tese, poderia ter mostrado pra ele o bom espirito brasileiro de trambique e troca de favores dizendo algo do tipo "se eu der entrada na nacionalidade e o senhor facilitar e acelerar meu processo, tem meu voto garantido". Fica pro proximo candidato que aparecer aqui, caso nossa casa entre na escolha aleatoria dele.

Conselho Geral?
A divisao politica da França é meio diferente do Brasil. A França tem 27 regioes, subdivididas em 101 departamentos (antigamente eram 96). Depois disso nao entendo nada. Um departamento tem arrondissements, cantoes e communes (pode ser um pedaço de uma cidade, uma cidade ou varias cidades). Fui ver no velho amigo wikipedia o que era esse tal de Conseil Général e o que M. PINOT faz. Até mesmo no wikipedia nao sabem bem explicar a definicao de Conseil Général:
"Le terme « conseil général », difficile à comprendre aujourd'hui..."
La dizem que esses conselhos gerais sao responsaveis por açao social, transportes, educaçao e desenvolvimento local para cada departamento. Nao seriam o equivalente a deputados, pois eles nao sao poder legislativo. Além disso existem os deputados de cada departamento. Apesar de Grenoble fazer parte do departamento de Isère, o presidente do Conselho Geral ganha menos (1876 €) que o prefeito de Grenoble (5400 €). Continuo sem entender bem a divisao de responsabilidades aqui, mas nao tenho interesse em me aprofundar muito nisso.

A questao que achei curiosa é que nunca recebi politico em casa no Brasil, e nem sei se eles fazem esse tipo de contato individual. O que vejo no Brasil sao caminhadas, e visitas em areas carentes onde é facil "trocar" o voto por promessa de obras. Outro detalhe é que, depois de quase 4 anos aqui nunca vi movimentaçao de campanha politica, bem diferente do espalhafato no Brasil. Segundo o site do Ministère de l'Intérieur, desde 2007 (quando chegamos) houve diferentes eleiçoes aqui. Nunca vimos movimentaçao politica nas ruas, nem camisas, nem banners, nem comicios. Nao sou muito de ver TV, entao nao sei dizer se rola horario politico ou debates. Para presidente sei que tem, e assisti no Brasil pela TV5 Monde um debate de Sarkozy e Royal (nao entendi muita coisa na época pois estava engatinhando na lingua francesa).

Monsieur PINOT, nao vou votar no senhor, mas seu nome nunca esquecerei por ser o mesmo da famìlia da variedade de uva que faz os meus vinhos favoritos: pinot noir, da Borgonha, e as pinot gris e pinot blanc da Alsàcia. Além disso nunca esquecerei a visita de um politico em minha casa, coisa que nunca aconteceu nem sei se acontecera morando no Brasil. Pode até ser alguém com intençoes de se beneficiar da maquina publica, mas esse contato cara a cara nos permite saber quais as intençoes do cidadao que supostamente deve representar o povo, dando oportunidade de debater pessoalmente com quem eu poderia confiar meu voto, fazendo perguntas e esclarecendo minhas duvidas. Podendo conhecer e ver realmente quem é e o que pretende o candidato. Mas se for Tiririca quem bater na minha porta um dia fica dificil. Se eu perguntar sobre seus projetos, ele nao sabe nem quais sao. Acho que pediria pra ele contar umas piadas ou cantar "Florentina" porque isso com certeza ele sabe, e sera bem mais interessante.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Escolhas

Eu digo que é sempre bom ter-se uma opçao apenas. Porque quando temos mais de uma começa a ficar dificil tomar decisoes. Especialmente quando se esta inseguro. Ja falei aqui que voltaremos para o Brasil apos minha defesa do doutorado. No post anterior falei que o pedido de cidadania francesa furou. Hoje foi a vez de eu declinar um convite de pos-doc. Apenas a carater informativo: pos-doutorado nao é titulo. O grau acadêmico maximo é o doutorado. Logo, esta meio furada a afirmaçao "fulano(a) é pos-doutor(a)". Pos-doc refere-se ao periodo (geralmente entre 1 e 3 anos) passado por um doutor em uma instituiçao de pesquisa (universidade, instituto, departamento de P&D de empresa, etc). Tem doutor que fica pulando de galho em galho fazendo pos-doc por muitos e muitos anos, mas o normal é ficar um ano em um pos-doc e em seguida arrumar algo mais duradouro. Professores doutores também fazem pos-doc (utilizava-se o termo periodo sabatico), servindo pra dar uma atualizada ou aprofundada em alguma area do conhecimento.

Non, merci
Normalmente um doutorando (ou mesmo um recém doutor) rala pra encontrar pos-doc legal. Esse que declinei caiu no colo. Meu orientador falou pra um arquiteto de software do departamento de P&D de uma grande empresa de telecomunicaçoes européia (aquela com nome de fruta) que eu estava acabando a tese e buscava um pos-doc. Ele conhece a tematica com que trabalho, que tem a ver com os projetos do departamento dele. Recebi o convite para continuar com eles na mesma linha de pesquisa de minha tese. Um framework (para os leigos: digamos que seja um software que serve de infraestrutura para fazer outros softwares) deles entrarà em fase de industrializaçao, e eu iria aplicar neste projeto tecnicas que usei na minha pesquisa do doutorado. O projeto pronto potencialmente poderia entrar nos produtos dele a médio prazo, que em alguns anos significaria milhoes de usuarios. Claro que produtos de pesquisa tem sempre grande potencial de serem engavetados e nunca chegar perto do mercado. A possibilidade de milhoes de usuarios é altamente motivadora. Fora o desafio, a grana ia aumentar pelo menos uns 50% em relaçao ao que ganho hoje, que ja nao é ruim pro padrao francês mas também nao é boa, ainda mais para uma familia de 3. Se tivesse abertura pra negociaçao eu até choraria pra ganhar mais. Soube que eles tem varios beneficios, inclusive passagens aéreas baratas.

Mas ja é passado. Tive que declinar, pois entra o lado familiar visto que a nossa decisao é retornar para Pindorama. Minha esposa esta vivendo quase 4 anos aqui na França sem nunca querer ter saido do Brasil. O estranho é que ela gosta daqui, mas nao gosta do fato de estar aqui. Acho que foram os anos mais dificeis da minha vida (e da dela imagino que também). A infelicidade dela era diariamente aparente, com breves momentos de alegria. Depois que ficou decidida a volta, o bom humor dela ficou mais frequente, e o brilho nos olhos dela parece até que aumentou. Uma pena que eu e nossa filha nao sejamos suficientes pra felicidade dela. Pra mim o trio ta otimo. Mas, cada um é cada um.

Valorizaçao dos trabalhos de tese
Ainda nao defendi a tese, mas fico motivado pelo que faço ter uso no mercado. Em uma apresentaçao nao tanto acadêmica que fiz em 2009, uma pessoa se interessou pelas técnicas que proponho. Fiquei desconfiado se o cara realmente tava interessado. Achei que ele estava louco em pensar que o que eu fazia era interessante. Hoje ele aplica essas técnicas no produto em desenvolvimento na empresa start-up que ele criou, e atualmente eu e meu orientador damos consultoria pra esta empresa através de um contrato formal com nosso laboratorio.

Voltando para o Brasil provavelmente terei que fazer outra coisa. Minha pesquisa atual nao tem espaço no mercado brasileiro, que normalmente usa tecnologia pronta ao invés de desenvolver. A interaçao universidade-mercado na França nao é tao forte como nos EUA, mas é bem mais avançada que no Brasil. Por incrivel que pareça, a impressao que tenho da academia brasileira é que predominam abordagens cientificas e formais, enquanto na França (e na Europa em geral) vejo tanto isso quanto pesquisas aplicadas diretamente no mercado.

Sem precisar fazer lobby nem correr atras de nada, a tal "valorizacao dos trabalhos de tese" (um termo que usam aqui na França) aconteceu meio que naturalmente. Muita gente trabalha em pesquisa de doutorado durante 3, 4 anos, defende, engaveta a tese e nunca mais se fala naquilo. Antes mesmo de terminar a minha ja pude fazer reais contribuiçoes. Tenho (ou tinha) um grande complexo de inferioridade por ser aluno de universidade privada tentando se meter em meio acadêmico. O fato de vir a um pais de primeiro mundo, poder dizer "olha, vocês poderiam fazer isso assim" e te darem ouvidos me deixou bastante satisfeito. Essas pequenas vitorias me ajudaram a superar esse trauma e melhorar minha autoestima.

What if
Mas, em nome da familia, agora é hora de eu abrir mao de algo. O processo de auto sugestao hipnotica alienante power plus plus de me convencer para a volta esta tranquilo. Eu acho (percebam como estou decidido). Estou convencido de que quero voltar agora. Claro que sim! o boom economico do Brasil, os concursos, investimentos no Nordeste, o legado de Lula. Eh agora ou nunca! * pausa* Cada vez mais acho que este post é parte do trabalho de autoconvencimento, autoconformaçao, autoetc para "eu mesmo me auto justificar para mim". Bom, se eu nao voltar fico sem familia pois minhas meninas voltariam sem mim. Se é pra voltar, tenho que querer, ou ao menos me convencer que agora é a boa hora. *fim pausa* Mas, o plano atual de retornar e prestar concurso de professor adjunto em federal vai ter que esperar devido a noticia que vi hoje dos cortes que o governo fez no orçamento de 2011 (preciso tirar os concursos da lista acima). Coincidência bizarra de acontecer isso no dia que eu recuso um pos-doc legal. Sem previsao para concursos, é hora de traçar o plano D e talvez buscar emprego de novo no mercado brazuca, rasgando o diploma de doutorado que ainda nem tenho pois doutorado nao serve de nada nesse mercado de onde vim.

Entretanto, ficara pra sempre a duvida do "e se eu ficasse um pouquinho mais de tempo na França, até onde iria tudo isso?" (isso me lembra o what if das historinhas da Marvel). Afinal, nao tenho vinculo com Capes nem CNPq que me obrigue a voltar. Um aninho a mais, daria tempo pra tirar cidadania, juntar mais uns eurinhos pra voltar e quem sabe dar mais umas turistadas pelas redondezas. O problema também é que ficando, no futuro surgirà o "e se tivessemos voltado logo apos o fim do doutorado?".

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Cidadania francesa

Nao, nao tirei a minha. Quase. Conto a historia a seguir.
Em setembro do ano passado, ao voltar conversei com um amigo marroquino la do laboratorio que disse que ia dar entrada na cidadania francesa. Ele falou que a cidadania de um amigo dele que faz tese em computacao, como nos, com contrato CIFRE (em parceria com empresa) saiu em seis meses. Meu amigo ficou empolgado com a idéia e ia dar entrada, finalmente, pois ele mora aqui ha nove anos. Ele falou que é so pedir na prefeitura um formulario e fornecer uma tonelada de documentos. Quando fui pegar minha carte de séjour, em setembro, aproveitei e fui também no atendimento da cidadania pra me informar. A conversa foi mais ou menos assim, e ja cheguei fazendo o "migué", como dizem na minha terra:

Senhora, estou renovando meu quarto titre de séjour, e como pretendo ficar aqui na França acho mais facil pedir cidadania pra facilitar a vida etc e tal.

Bom, era mentira, pois eu queria voltar pro Brasil depois da tese. Bem, na verdade minha esposa é que quer voltar a todo custo, e depois de um longo processo de autosugestao hipnotica alienante eu me convenci de que quero ir também. Mas, voltando ao dialogo com a mulher da prefeitura:

Veja bem, senhor. O objetivo da cidadania nao é simplificar a burocracia. O negocio é integrar à pessoa à sociedade francesa.
Sim, claro. Eu quero me integrar. Vou me candidatar a Maître de Conférences (equivalente a professor assistente) aqui e tudo.

Mentira de novo. Se eu fosse Pinoquio meu nariz ia crescer outra vez. Se bem que ia passar despercebido na França, visto o narigao que a galera tem aqui. Continuou a madame da prefeitura:

Tudo bem. Mas veja que o estatuto de estudante é precario. Você tera poucas chances. Para obter a cidadania é importante ganhar mais que o SMIC (salario minimo) e pagar impostos.
Olhe, eu sou estudante de doutorado mas meu estatuto é scientifique, pois sou allocataire de recherche. Como sou monitor também, fica bem acima do SMIC, e eu também ja pago impostos.
Ah, ok. Se é assim entao você tem mais chances. Veja se você cumpre os requisitos, leve esse formulario, preencha e forneça todos os documentos listados nessa folha. Você pode adicionar outros documentos como uma carta de recomendacao, por exemplo de associaçao do bairro, para provar sua integraçao à sociedade. O tempo de resposta é de até 18 meses mas estamos trabalhando para baixar para 12 meses.

Requisitos
Os requisitos para pedir cidadania sao varios. O meu seria:
  • Morar ha pelo menos 5 anos no pais. Exceçoes para quem tem diploma superior francês e dois anos adicionais de estudo na mesma area do diploma.
No meu caso, tenho diploma de Master 2 Recherche (M2R) e mais dois anos e meio de doutorado. O fato de nao ter concluido o doutorado ainda poderia ser negativo, mas tem o historico do rapaz citado acima, que conseguiu em 6 meses ainda como doutorando. Busquei em foruns na Internet e teve gente falando em 5 meses. Como sou da area de Informatica, que ainda possui carência de profissionais na França e em varios outros paìses desenvolvidos, acho que seria um ponto positivo do meu pedido. Além de tudo isso, o prejuizo investimento ao final de nossa estadia custara algo perto dos 100 mil euros para os cofres franceses, juntando bolsas, ajudas sociais, viagens para conferências, etc. Se contabilizar a mensalidade da universidade, que é publica, acho que passa a faixa dos 100 mil. Baseado em antigas declaraçoes de Sarkozy, que pede que estudantes de BAC+5 (Master e Engenheiros) pedindo que nao retornem a seus paises, e fiquem na França, imaginei que seria o mesmo com doutores. Aquele negocio de guardar o investimento pra ter retorno. Eu achava que tinha varias razoes para receber a cidadania, além disso nossa filha nasceu aqui e eu poderia dizer que estava me enraizando, e ela se educando em instituiçoes francesas. Mesmo sem ela ter nacionalidade achava que o argumento seria valido e fortaleceria o pedido.

Just in case
Apesar de nossa filha ter nascido aqui, ela nao é francesa pois nenhum dos pais tem cidadania daqui. O direito de solo nao existe mais na França (alguém me falou que ha um tempo quem nascia era cidadao, mas nao sei se procede essa informaçao). Na verdade existe parcialmente. A criança teria direito a pedir a cidadania aos 16 anos, com a condiçao de estar morando na França e ter vivido ao menos 5 anos, nao necessariamente continuos. O lance de cidadania era mais pra ela, que ganharia automaticamente se viesse pra mim. A minha esposa estaria fora, pois o pedido dela teria que ser feito à parte, mas ela nao qualificaria por nao ter diploma + 2 anos de estudo.

Além de obter cidadania pra filha e ela poder ter uma outra opçao no futuro de querer vir estudar aqui e ter todos os beneficios possiveis, tem o lance para nos mesmos, de poder facilmente voltar caso nosso retorno ao Brasil dê em algo errado, ou se bater um arrependimento de trocar o conforto de um pais desenvolvido pelo calor (tanto do clima como da familia e amigos) da terrinha natal. Adoro a qualidade de vida daqui, e sentirei bastante impacto em varios sentidos voltando para o Brasil. Acostumar com coisa boa é facil. Desacostumar é dificil. Mas minha terra é minha terra.

Para que nao pensem que é frescura de quem vem morar na Europa, tentem me entender com um exemplo exagerado: sua mae é uma prostituta, e mora numa favela, onde você cresceu. Você vai morar em outro lugar melhor, nao mora mais naquela favela, e tem acesso a coisas melhores. Apesar de preferir essa vida nova, você sempre sera filho da puta que cresceu num favela. Mas você sempre vai amar sua mae, independente do que ela faz, e você vai sempre se sentir em casa na favela onde cresceu. De qualquer maneira, o que fazem com tua mae te incomoda, e as condicoes de vida na tua favela poderiam ser melhores, menos violencia, etc. Agora leia de novo o inicio deste paragrafo, trocando a palavra "mae" por "patria", e "favela" por "paìs". Entendeu agora?

Voltando à cidadania francesa: ficamos na duvida aqui em casa se voltariamos pro Brasil no fim do doutorado ou nao. Fica e espera cidadania? Vai ou nao vai? Como diz a letra daquele forro: Eu boto ou nao boto? Tô com medo. Decidimos que iamos voltar de qualquer maneira em outubro, depois da defesa. Dariamos entrada na papelada, e se saisse a cidadania, beleza. Senao, tranquilo também. Estava com todos os documentos ja. Até antecedentes criminais do Brasil tinha.

Documentos originais
Ao preencher o formulario vi que falavam em ficar com documentos originais. Perguntei a meu amigo que tinha dado entrada, e ele confirmou. Eles armazenam sua certidao de nascimento (no meu caso seria a de casamento) e varios outros documentos. Abort mission. Dei ré e desistimos. Nao queremos correr o risco de ir embora e deixar documentos importantes aqui, em troca de uma coisa que "pode ser que talvez de repente seja util no futuro".

Digamos que desse certo e até mesmo que nao voltassemos. Mesmo que me desse emprego publico francês, cidadania e mudassem meu nome pra Jean Pierre, eu nunca me sentiria francês. Nem português, nem norte-americano, nem o que seja-ês. Apesar de nos 14 anos vividos na minha idade adulta (dos 18 anos aos 32 que terei no fim do doutorado) ter passado metade no exterior (3 nos EUA e 4 na França). Nasci e cresci (0 a 18 anos) em Recife. Eu falo outras 3 linguas, mas nunca dominarei nenhuma como o meu português brasileiro. Sou brasileiro para sempre. Minha alma é brasileira e minha cultura é nordestina. Meu sotaque pode até ter enfraquecido, mas falo ôxe, vixe, eita porra, véi, carai. Sou brasileiro, pernambucano e megalomaniaco. Tenho raiva e amor, vergonha e orgulho da patria que me pariu.
Mas bem que um passaportezinho europeu cairia bem, no caso da minha patria mae arrumar um cafetao malvado em um governo futuro...